29 de fev de 2008

Dançarindo

Danças
com a audácia com que os deuses jamais dançaram,
com a violência súbita de um poema urgente,
com a ternura com que serpentes brotam do solo árido,
com o ímpeto dos rubros outubros.

Erótica e lírica
é tua carne que se multiplica
Flutuas, disseminando o aroma dos deuses,
desafiando o bailar dos versos, dos pássaros, dos dias.
Renegas os compassos marcados
Das folhas embaladas pelo vento,
Da garoa ritmada da capital,
Dos tangos sob lençóis.

Danças, ou é apenas o universo
que decidiu contornar-te,
girar regido por teus dedos?

Teus sorrisos de incontáveis dentes
dançam, mordem, rasgam a noite,
luzindo-a de prismas.

Os sons do mundo se empalidecem
grades e garras se dissolvem
chamas derretem, vertem lágrimas.

Anjos e demônios
passam a existir,
contorcem-se num baile de medos.

Danças como quem floresce,
animal de pernas e mãos multiplicados.

Nada respira,
porque todo o ar se ocupa de teu baile mágico
solitário.

De teu nome cristão,
de tua presença terrena, material,
de tua dança demoníaca,
eu não ousaria aproximar-me.

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