21 de mar de 2010

sapiens sapiens

Querem-te máquina.

Tua esperança
dia a dia desbastada.
O tempo
oxidando articulações,
usinando sulcos em tua face.
E não é fácil
facear a dor.

Querem-te máquina.

Tuas artérias e veias,
vias hidráulicas valvuladas,
em sobrepressão.

Tua bomba-coração
irriga.
Mas há dias
em que explode.

Querem-te máquina.

Teus braços aços
torneando os dias em turnos.
Afiadas ferramentas fixas,
que fresam, forjam.
Mas também ferem.

O mundo pesa
sobre tua caixa torácica,
escudo de verso inoxidável.


Tua inteligência
não é artificial,
não é programável.

Querem-te máquina.

Se eles soubessem
teu limite,
teu torque máximo...

3 comentários:

J. disse...

Às vezes algumas pessoas também me querem máquina. Mas sou feita de carne e sangue. Eu pulso.

Beijos.

J.F. de Souza disse...

não haveremos de sucumbir
enquanto imprevisíveis

João disse...

Belos versos. Faz lembrar um Ferreira Gullar nos seus bons tempos. Mas é outra coisa, porque os tempos são mais difíceis do que foram... e a poesia necessita ser outra coisa também.