30 de set de 2010

Kafkiana

Crisalidamente protegida,
durmo até que as cores
me explodam
e os versos voem.

Eu canto até me abrir,
desfazer o exoesqueleto.
Máscaras descartadas.
Romper a casca de quitina.

Descasco-me.
Abandonando
um eu lírico, um heterônimo.
Metáforas e metonímias
em mutações genéticas.

A poesia se move
tectônica como os continentes,
como o samba dos teus pés.

Em seu suco amniótico,
eu morro e nasço
em cada verso, cada paixão.
Sempre feto.

4 comentários:

Leonardo B. disse...

[poema texto criação do universo, uma vez mais, que hoje morre para amanhã acordar, entre a palavra]

um imenso abraço, Yara

Leonardo B.

Anderson Meireles disse...

Sempre feto, porém cheio de vida! Belo texto!

João disse...

Faz pensar bem na poesia como possibilidades, e, mais do que aquilo que se revela por de trás deste "descascar-se", por de trás do sono, é o próprio movimento de abrir-se o conteúdo de si. A poesia como movimento tectônico parecido com o dos continentes pode ser entendido literalmente, talvez, num certo sentido....

De kafka só faltou o desespero e a angústia de não querer ser "sempre feto". Esta condição kafkiana é pouco ou nada agradável, embora retratando a impossibilidade de deixar de ser feto que Kafka, pela literatura, deixou de sê-lo.

A vida é uma aventura e "morrer e nascer" a cada verso, na poesia, é próprio viver pois não deixa de ser arriscado...

Lara Amaral disse...

Visceral, do jeito que eu gosto. Incrível!

Beijo.