19 de set de 2010

Resíduo

O mesmo dia.
Terra tonta
rotaciona
sem translação.

O mesmo café
engolido de pé na estação.
Mesmas faces sonolentas no trem.
Lugares demarcados.
O feijão
repetidamente ruim.

Cansaço acumulado,
rugas, cicatrizes
lentamente
usinadas no corpo.

Apenas no corpo
o tempo passa,
se acumula.
Lá fora
o dia rotaciona,
reamanhece
sempre tão igual.

O corpo
apenas aguarda parar.
Aguarda o trem.

Mas se acumula no corpo
mais que rugas
mais que pó.

No corpo
nasce a poesia
flor inesperada e súbita.
Nasce em silêncio,
devagar.
Nem o sol a percebe.
Quando se vê,
já é rubra,
procriou.

Fará mudar
o corpo
o tempo
os dias.

6 comentários:

Leonardo B. disse...

[o poema é corpo de poeta em inquebrável construção: cansaço é projecto e ganha pão]

um imenso abraço,

Leonardo B.

Blog do Akira disse...

"Todo dia é essa guerra
todo dia é essa barra
esse verso caido no escuro
esse menino que berra
essa vida vivida na marra"

Yara,
peguei o 05h30 no Itaim durante anos, mesmo vagão, mesmas caras amanhecidas dia após dia, mesma flor da poesia nascendo a cada manhã. Um abraço e parabéns pela poesia imensa.
Akira.

Tadeu disse...

"A rotina é a morte da poesia" (João Cabral de Melo Neto)

Elliott disse...

Os dias
o tempo
o corpo
fará mudar
a flor rubra
inesperada ruga
que nasce
em silêncio
nas costas
do sol.

As cicratizes
e o café
usina
dos meu passos
elimina
o cansaço
o sono
engolido
aos poucos.

E a terra tonta
encontra
o eixo
equilibra o
peão a rodar.

O trem passou
a terra girou
sempre tão igual...
mas amanhece
lentamente
a flor
o feijão
que brota
o novo dia.

Fátima disse...

Oi Yara,

Feliz por conhecer teu blog és muito talentosa, gostei de muitos, viajem em muitos.

Beijos
Fátima

Anderson Meireles disse...

Poesia que nasce cinza na desconstrução que é o cotidiano e floresce colorida como quem se parte em versos verdadeiros!