15 de out de 2010

Maldizendo


Não se encruzilhe.
Poesia é mandinga braba.

Se a caldeira
desavisada
ferve.
Não vá misturando
pitada de verbo
línguas de metáforas
gosto sinestésico
de luar...

Não arrisque
alquimia de significados,
ricos sabores neológicos,
pois o molho
unguento
cozinha...
será inocente o que virá?

Não se iluda
com a magia
das assonâncias,
a ousadia
nos ouvidos
das moças.

Poesia não é coisa
do céu.
É obra do cão.
Macumba,
urucubaca...
não larga mais
a sangria intermitente.
A prosa tinhosa.

Pensa que impunemente
pode ir criando cântico
que alcança o âmago
e faz do olho uma nascente?

Prepare bem o ebó
de peito aberto
e corpo fechado.
Poesia é negócio feito
com sangue e alma.
E o Coisa-ruim
cobra em espécie,
líquido e corrente.

Não invoque o mundo
esta suposta
encruzilhada
de olhos malaguetos.
Esta sensação de incômodo.

Depois não haverá remédio,
exorcismo, quebranto
que a arranque
o nódulo do peito –
essa paixão no estômago.


(Por Yara Fernandes e Lee Flôres)

3 comentários:

Jorge Manuel Brasil Mesquita disse...

Poesia é um cão que ladra aos ouvidos do mundo as paixões de mastigar a sobremesa dos ventos.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Lisboa, 15/10/2010

° Marrí disse...

Poesia é feitiço.

Caranguejúnior disse...

Muito Bom!
Poesia é uma coisa de louco mesmo...