29 de fev de 2008

Vácuo

Descontém dor ou alegria
o infeliz despreenchido vão
do êmbolo que (não) bombeia
o sistema hidráulico das veias.

Um não-espaço vazio, cheio de nada
transborda coisa alguma
repleto de tudo que diluiu
ausente da vida que desfloresceu.

Distância

Abismais fusos,
longifronteiras,
demoradas horas ausenteiras.

Quilometrais dias de vácuo,
versados, lacrimais.

Distausente moço
desmemoriado,
no esquecimento
perder-me-á?

Dançarindo

Danças
com a audácia com que os deuses jamais dançaram,
com a violência súbita de um poema urgente,
com a ternura com que serpentes brotam do solo árido,
com o ímpeto dos rubros outubros.

Erótica e lírica
é tua carne que se multiplica
Flutuas, disseminando o aroma dos deuses,
desafiando o bailar dos versos, dos pássaros, dos dias.
Renegas os compassos marcados
Das folhas embaladas pelo vento,
Da garoa ritmada da capital,
Dos tangos sob lençóis.

Danças, ou é apenas o universo
que decidiu contornar-te,
girar regido por teus dedos?

Teus sorrisos de incontáveis dentes
dançam, mordem, rasgam a noite,
luzindo-a de prismas.

Os sons do mundo se empalidecem
grades e garras se dissolvem
chamas derretem, vertem lágrimas.

Anjos e demônios
passam a existir,
contorcem-se num baile de medos.

Danças como quem floresce,
animal de pernas e mãos multiplicados.

Nada respira,
porque todo o ar se ocupa de teu baile mágico
solitário.

De teu nome cristão,
de tua presença terrena, material,
de tua dança demoníaca,
eu não ousaria aproximar-me.

Despertar

Eles acordaram!
É tempo de vida, reprimida canção!
Não há mais lágrimas, ínfimas dores se vão.
E eles despertam!

Explodem os passos
da multidão de palavras desgarradas,
manada estourada.

Eis o sol levantado e a noite acordada,
a caneta viva e o punho erguido.
Eles despertam,
raízes entranhando-se na terra.
São brotos que rasgam solos úmidos,
são teus dedos entranhando o peito meu,
bombeando ar e sangue,
e lume e seiva,
e vida e verso.

Desobstruidores de pulmões e vias públicas.
Destruidores de mansões pútridas.
Ei-los como pedras contra o batalhão de choque,
como toque petalado em tua alma,
como calma bruma.

Subitamente acordaram,
velhos naufragados,
insones insolentes,
descontentes incomodados.

Eles rompem grades, voam de janelas,
sobem nuvens, exalam eucaliptos,
rodopiam saias, carregam bandeiras,
dissolvem-se no sangue e na vodca,
vívidos...
Ei-los como vértices
perfurando a carne dos desavisados.

Ei-los acordados
numa agência bancária, numa urgência incendiária,
fartos dos números,
do fétido câncer capital.

Ei-los despertos,
abertos, perversos,
meus sufocados versos.