25 de ago de 2010

Sobre Flôres

A pré-cisão da fabricação do verso.
Funciona.

Um sempre dizer amor
até quando o amor não ama mais.
Um acender e apagar de estrelas.
Matutinas? Vesperais?
Apenas versos breves de açúcar,
brevidades no café...

No cálice:
Vodca engatilhada? Lágrima decimal?
Expressão de sim e não.
Platônica paixão:
amor-ideia morando na palavra,
nos repentinos repentes.

Em ti
li flores
(ora rosas de mercúrio,
ora ensolarados jasmins).

Por vezes,
mesmo em flor,
li o sangue talhar no semáforo...
E tuas mãos cintilando,
aparando as cores do poema que escorre.

Se te levo no peito
(Flôres na lapela),
a ti separo uma rosa
(esta)
que declare guerras e amores.

19 de ago de 2010

Silêncio IV

As grades dos dentes
retendo a sílaba
o sorriso
o beijo
o penúltimo poema.
Rangentes caninos
regendo as notas
sinfônicas do silêncio.

Silêncio cimentando sequelas.
Entoa sarcástico no estômago
um banzo silencioso.
Dilúvio no copo. No corpo.

Despido de sons
o corpo ainda dança
solilóquio
desnutrido
ossos à vista.

(Quem dera fosse o silêncio
apenas a aliteração deste verso,
triste insistência consonantal)

Ainda em deleite,
o corpo dança
a sátira do ritmo.
Síntese etílica na saliva.

Esquisofrênico
o corpo dança em silêncio.
Sem palavras
sem prosa
sem poesia...

13 de ago de 2010

Pequena

É tanta a poesia
que fecundas
em meu ventre,
que, quando nasce,
ela me arrebenta.
E não há leite que baste
para alimentá-la.

É tanta a poesia
plantada por ti
em meu útero,
e eu sou tão pequena,
que me engrandeço
para que ela caiba.

Marcília

Que se faça silêncio na sala
para que Marcília
pinte os cílios.
Minuciosa. Ensimesmada.

Se Marcília,
serena e sádica,
pinta os cílios desapressada,
se as pálpebras
assombradas e sombreadas
piscam
e, desacelerados,
os cílios curvilíneos
em revoada
abrem ventos e pausas no tempo...
apenas faça silêncio.

Nenhum som se emita
se os lábios entreabertos
se vestem de tons cerejais.

Se o espelho
é insuficiente
para a síntese pessegal
da face de Marcília,
só disfarce e observe a simetria.

Mas faça silêncio
para que os cílios de Marcília
não alcem vôo.

11 de ago de 2010

No Enquanto

Beatriz presa
na geografia quântica
do Enquanto.
O corpo paira
no espaço-tempo.
Beatriz presa no purgatório.

Beatriz no mar,
cúmplice do sal.
Permitiu que o vento se esvaísse
na fresta entre dunas.

Mas não.
Beatriz não fica em banho maria.
Ela ferve ou congela
ao menor toque.
Beatriz não ameniza.
Alquímica e empírica,
ela cura a seu modo as feridas.
É dessas que passeia na chuva
e só bebe o que for intenso.
Beatriz condensa.
Eutanásica,
recusa o coma, a sobrevida.
Rejeita médias aritméticas,
meios termos.

Beatriz
presa no purgatório,
a libido no limbo.
Diabólica, fabulística,
aprende a moral da história.
Recua.
O paraíso não existe.

Beatriz no triz da carne
recusa a prisão.
De dentro do Enquanto, fez-se o pranto
e ela não mais quis.
Mergulhou
tão abissal
no verso.
Nunca mais voltou.
Desenquantou-se.

9 de ago de 2010

Duvidando

Dúvidas
nos poros dos morangos
encobertas
pela condensação do leite.
Dúvidas em névoa.

Mordo cada dúvida
nos gomos da tua carne.
Dúvidas criando músculos.
Meticulosas, trabalhadas.

Dúvidas viúvas,
perdidas de causas,
enlutadas, resignadas...

Duvido
de resposta categórica
indivisível
indubitável
que as vença.
Ao invés,
divido contigo
os dividendos da dúvida.
As dívidas, as dádivas.

No fundo
a dúvida
é névoa
divagação...

5 de ago de 2010

Gole

Será veneno
ou será morfina?
Como brindar
se as taças estão
possivelmente preenchidas
com bebidas peçonhentas?

Como saber
se o conteúdo da seringa
mata ou chapa?
Se cura o câncer, se ameniza a dor?

Se o frasco não tem rótulo,
se não se sabe a safra,
a procedência,
se absinto, se cicuta...

Como saber
se a água é benta ou virulenta?
Se for seiva, sêmem ou sangue,
eu engulo? Jorro? Coagulo?
A fenda que escorre
eu estanco ou vampirescamente sugo?

O que fazer da lágrima?
Destilo margueritas?
Extraio o sal,
salgo a carne esquartejada?
Sirvo o pranto
em taças,
em doses dietéticas?
De ciúme? De cianureto?

Resta
arriscar o gole.

Verborragia

Ê sujeito!
Deixe dessas
adversativas!
Que nossas conjunções
são aditivas e carnais.

Não seja intransigente,
intransitivo, transitivo,
transitório...
Pois amar
é verbo de ligação.

Gás lacrimogêneo

Tudo o que era concreto
evaporou.

Restou,
lacrimogêneo e tóxico,
o gás da saudade:
partículas de memórias
envenenando pulmões,
ardendo nos olhos.

De lacrimogêneo,
o apartamento
virou câmara de gás.
Cianídrico.

O aroma
transbordando das panelas.
Os graus centígrados
dos lençóis.
O pH dos corpos ensaboados.
Na minha pele,
os átomos desgarrados do teu corpo
pelo atrito com o meu.
Todos os nossos pontos
de ebulição...

Tudo evaporou.
Mas não, nada se perde.
Tudo é transformação,
reação química, ou dialética.
Refazendo ligações covalentes.
Re-solidificando.

1 de ago de 2010

Palavras ao vento II

Abrapalavracadabra:
qual palavra chave
abre a trava
do teu coração?

Quais palavras serão aves
em sobrevoo
sobre teu sopro?

A palavra treme
cravada
sob teus dentes.
Tua presa e prisioneira.

Abrapalavracadabra.
Abra a palavra,
perfura a frase
a estrutura
transforma a palavra dor
em cura.

A palavra pede calma
colhe pedaços
forma sílabas súbitas
de um poema.

Afiados fonemas
palavrando
esparramando
versos no vento.