30 de dez de 2008

Monorgia

Se vendados os labaredos olhos,
pareciam incontáveis:

Descortinadas bocas arreganhadas
esfomeados dedos e línguas
sugam vértices arrepiados
contornam arestas e convexas carnes
adentram fendas e recônditos côncavos
tateiam ora ferinos ora sedosos
penetram fenêtres, aguardam sedentos
os versos escorridos entre pernas
o poema úmido gutural
as minhas multiplicadas borbo-letras líquidas.
Incontáveis.

Mas eras tu apenas.

18 de dez de 2008

Dissabor

Não sou
tua flor.
Sou bruta.

Sou espinhosa.
Saborosa
fruta de cicuta.
Prova a gota!

Cansei de esperar
teu verso vadio.
(frio)

Vou te injetar
meu dissabor.
Peçonhenta palavra
de desamor.

14 de dez de 2008

Para de-gustar

Peles de framboesas dormem nuas.
Salivas sorvem o despertar.
Tuas mãos ágeis derramam
o amarelo aroma curry desta aurora.
Deixa dourar.

Me gusta tua pele adormecida sob o fogo:
queijos beijos quentes
acariciando meu tom jasmim,
o alecrim da minha nuca,
o cheiro de mim.

Degusta o gosto dela:
canela e mascava cana
salpicada de giz.
Degusto a pitada jalapeña
flambada no mel do teu olho
temperado de dor e dúvida.

Me gusta lamber-te
a fervura do corpo, o copo de ti,
a penúltima gota azeite.

Prepara e condi-menta
este amor, este anil, este aniz,
em banho-maria, em manjericão.
Em pitadas macias dos dias.
Insacia-te.

7 de dez de 2008

D'ocê

pede colo e beijo e bis
diz que talvez quem sabe se
sê acre e doce em minha língua
míngua, e então reaparece
tece nuvem em fio açucarado
amado meu de gás hélio voa
e soa como se niño fosses
doce algodão menino meu

5 de dez de 2008

Subversos (Ainda)

sob
unhas roídas famintas, sob
as chagas gangrenadas, as não suturas, as in-curas... sob
as sedes desérticas, as desjardinadas rosas, sob
as engrenagens deslubrificadas, as desarranjadas ruas metrópoles, sob
os viadutos escorbutos brutos, sob o luto, sob
o sujeito oculto da oração imper-ativa, sob
o vento aromado na face, a aurora, o árido, sob
o amargor líquido dos dias, as digitais dos calos, sob
os ralos gástricos, as reles marcas feridas, sob
histórias relidas idas, as rotineiras lidas, sob
o cheiro ainda vivo vindo das matinais padarias, sob
teus olhos narizes bocas rugas vítreos

duelam dialéticos
a rima triste do meu tempo
e a por vir poesia

Poema número 100

Sentes o poema?
Meu tema tão santo,
tão sinto...

Esta insone centelha
sem rima,
absíntica.

Sentes
o centésimo
do milímetro
do meu poema?

Meu poema
sem ti
sem número...
100-tes?

2 de dez de 2008

Hipérbato

Inverto.

Vertingens verto.
Inventos inconvenientes
verso eu.
Dou-te pois, seu é este.

E se meu fosse
mais que revolucionices verteria.
(Mais que em versos ver-te).
Sub-versiva forma seria.
Um inverno in-verso ver-teria eu.

Pois despetala
desespirala a história
este primaveril sub-verso:

Um sujeito histórico
inobjeto
à frente do verbo é posto.
De frente hiper batendo.
À aurora rente.

E a (des)ordem esta
que se sub-verta!

29 de nov de 2008

Caverna

Teus dedos estalactites:
a gruta em gotas,
taciturna gruna.

A recôndita abriga-te,
derrama em tuas mãos
uma densidade cega,
orgásmica, ígnea.

A concavidade
de úmidos espele-óleos
guarda uma oceânica hipérbole,
um segredo de sal,
solidificado,
calcário.

Tão imenso
que cabe em duas letras:
tu.

14 de nov de 2008

(p)Ouso

Ousar
beber e derramar
teu insólido contradito.

Ousar
desnudar teu não dito.
Desvendar-te.

Ousadia deslizante
(p)ousar-te líquido
em Marte.

Ousar
ex-trair-te o siso em desuso.
Desatinar-te.

26 de out de 2008

Blues

Acordo.
É tua a mordida azul
de tatuadas notas
em meu corpo. Sangro.
É meu o banzo
que chora na tua corda.
Que é de aço, mas é bamba.

Acordo
pensativa e pentatônica.
Meu acorde arranha longo o âmago.
Ecoa rouco molambo,
flor gutural.
Pede que acordes.

20 de out de 2008

Ato

Ata-me:
meus pulsos em tuas rimas:
nós poéticos.

Ata entre teus dedos
os tensionados fios
dos meus cabelos
dos meus medos.

Ata intenções ao meu ouvido
e sobre os olhos a máscara de breu:
o obscuro verso teu.

Atemos bocas e braços:
nossos átomos
em ligas covalentes.

Ata a nudez da tez
em teus dentes
vampíricos, ateus.
Contorna rente o tronco.

Ata os laços oníricos.
Num ato,
costura nossas carnes
com tuas palavras e unhas.

Atemo-nos
num desacato ao recato.
Amarremos os ritos
em noturnos panos.
Atuemos.
Dolorosamente.

14 de out de 2008

Inside

Teu corpo é tão pétala
e minhas mãos te gostam
assim rubra lenta e líquida.

E dentro de ti
me recolho
me molho
me morro.

8 de out de 2008

Ouvres-toi

Abre-te.
Escancara o odor
de tuas pétalas.
Abre teus sésamos,
teu âmago esfíngico,
que eu finjo decifrar.

Abre-te.
Rasga, a dentadas líricas,
a boca do silêncio,
a caixa do tórax.
Despedaça
as cascas, as vidraças,
perfura a armadura.

Abre
tuas vias: férreas artérias.
Libera os pedágios.
Sê erosivo
em teu vivo rochedo.

Abre-te.
Sê fresta, des-tranca.
Desabotoa chuvas guardadas.
Segredos envelhecendo
em garrafas sem safras.
Destrava. Derrama.
Dá-me a chave.

30 de set de 2008

Big Bang

Tudo era tato
em seu breu
(matéria escura, espaço).

Tudo era toque, gesto, gosto:
movimentos centrípetos.
Nela um universo denso:
singularidade de sentidos,
condensando estrelas, universos.

Tudo era toque cego
mãos e bocas multiplicados,
matizes arcoirisadas ocultas.
Partículas que ela suga e ferve
em seu útero galáctico.

Adentrá-la.
Vítima de sua força cósmica.
Arremessado:
cada quântica partícula,
cada canto desejoso,
pra dentro dela, densa.
(Ele: apenas um gole
em seu infinito gozo).

Ela explode
e escorre
um universo em expansão.

26 de set de 2008

Ser raiz

Em tentacular movimento
adentro-te.

Ávida,
te cravo
meus dedos dendríticos
meus afluentes sólidos
minhas pontas
ápices
que te abraçam
te arranham.

Eu te sugo. Alimentada.

Depois
inutilmente tento
me arrancar de ti.

Ser flor

Ela botão.
Desabotoa
a saia:
petalada corola.

Aberta
é puro cheiro.
É veludo.
É cor.

Ela pistilo
aguarda o toque.

Ser fruta

Bebeu o sol
e, amadurecida,
atirou-se do galho
alcançou o solo
rompeu-se.

Expôs sua carne repartida
o âmago das sementes
o sumo
que, destilado,
exalou-se
preenchendo o ar.

Abriu-se (alegre)
e, repentinamente,
colhida de si
sentiu-se ferida.

20 de set de 2008

Um diálogo vetorial (VR = ?) *

AÇÃO DIZ:

Poesia:
esta força
antigravitacional.

Cada vez que é lida,
te impulsiona pra cima.
Sustenida.

Cada vez que abandonada,
a gravidade te joga pra baixo.
Desgarrada.

Em tua direção
(cheia de intensidade e sentido)
espera gerar igual reação.
.
.
.

REAÇÃO DIZ:

Que venha
um valente vetor.
Que atravesse
vertical, vagaroso,
as veias (vivas?):
avermelhados vales.

Que venha!
Eu não veto a vetorial poesia:
esta força visceral,
antigravitacional.

Que venha o vetor
em sua grandeza dinâmica
ferir minha estática.


(*Em parceria com Alicia Ayanami)

16 de set de 2008

Ensaiada

Se meus panos sinuosos
serpenteiam, rodopiam,
se apenas me lambem.
Se a saia tem dedos
que me tocam ávidos.
Se ela infla de ventos
se me inflama os sentidos des-ensaiados.
Se me dispo a um teu pré-sopro libidinoso
exalando flores púrpuras e seus cios.
Se me visto de vento.

Tu lagarto lento lento lento
sobes pelas saias.
Se elas são cortinas acetinadas,
se sou janela
boquiaberta entrepanos entrepernas.

Se chegas doce, escorregadio.
Se ensaias um verso em meu umbigo. Mordido.
Se me encontras: eu, esta ferida líquida
que lambes, aveludada,
este cume de mim.

Então sou gozo que chora
pela fenda, pelos poros, pelos olhos,
pelas saias.
Janela descortinada
des-ensaiada.

11 de set de 2008

Preparo

Minha carne
toda feita de enquanto.

Aguarda o encontro.
Temperada de pensamentos,
acende-aquece-fervilha-cozinha-amolece-queima...
A carne é preparo, é anunciação.
É esfomeada fenda que te saliva.

Tua carne
toda feita de encanto.

9 de set de 2008

Da redação

Ela diagrama eternamente.

Ela derrama éter na mente.
Ela é dia, ela ama, ela eterna:
ela mente.

Desafia.
Desfia o dia, a grama,
ela amando ternamente.

Lê-la
e tê-la na mente.

Diagr-amada.

5 de set de 2008

Forjado

O adeus:
lâmina de aço afiada.
O fio cravado na carne
pinga as dores e licores dos dias.

O músculo expele
o aço regurgitado cuspido devolvido
em fervor, fundido.

Espera-se
que o adeus de aço derretido
(chorado sangrado)
esfrie
solidifique
endureça
este coração.

28 de ago de 2008

In-exata

seria possível
calcular-me resolver-me abstrair-me
descobrir minha raiz
meu xis
meu milesi-mal?

eu
sempre esta tangencial
beirando lambendo tocando
a pele da tua circun-ferida
poética universal

eu
sempre vértice
de um triste prisma
tentáculo retilíneo
de carambola
perfurando-te

eu
tirando-te dos eixos
eu sempre parábola
concha côncava
abrindo-me
infinitando minhas linhas

eu
sempre paralela
para todos para ela
congruentemente cruzada
pelo ângulo de um olhar

eu
tua beatriz, tua bissetriz
dividindo-te
confundindo-te
para não ser sub-traída

eu
(cuidado!)
sempre em minha má-temática
milimétrica mítica
mato

21 de ago de 2008

Fever

a febre
violenta
ventríloqua
adentra o ventre
viru-lenta... delira
mira a miragem
saborosa
antitérmica
antítese do meu deserto:
oásis

15 de ago de 2008

Sem medida

__
-
- Quebradas
- réguas e regras
-
__
- Infinitômetros medem:
-
- os desengarrafados litros
- de sede incontida
__
- as infindas unidades de tempo
- gotejadas
- mastigando quilômetros, milhas
-
__
- a saudade em ecos
- de incontáveis decibéis
-
-
__
- os graus celsius febris
- das madrugadas:
- centígrados sentidos
-
__
- E sem rima, sem métrica,
- sem régua,
- somamo-nos:
- Uma unidade desmedida.
__

12 de ago de 2008

Pedaço

Da indecisão
a incisão
.
.
.
.
.
.
Tu
que partes
e és a parte
mais sangrada

Eu
indo
ainda te ardo

Nós,
despedidos,
dois despedaços.

7 de ago de 2008

Mal digerido

Engula
o grito agudo angular,
dor estomacal
mal digerindo
beijos agridoces,
incompletos.

Engula
a gula de viver,
a sempre ânsia
a cirrose
a dor cítrica do acaso.

Engula e devolva
mastigados cuspidos
os sentimentos coloridos
artificialmente.

30 de jul de 2008

Foto

As cortinas
dos teus olhos
de dentro do retrato
miram-me.
Piscam um clique.

Num contraditório,
és meu negativo.
Um estático vivo
na foto que me fita,
que me fotografa.

Nas retinas do retrato
minha pele
é revelada.

26 de jul de 2008

Almost

Eu
quase-amada
neste quase laço
trapezistamente
saltando triplo.

Eu quase sorrio
a piada pintada na face.
Eu, quase um rio...
quase derreto a maquiagem.

Eu quase toco os incisivos
da fera na jaula.
E os teus indecisivos.

Eu quase sinto o cheiro do teu cabelo,
quase o teu abraço
quando apaga o circo.

Eu,
desequilibrista
na tua linha tênue, teu quase.

23 de jul de 2008

Exame

E se eu me abrisse?

Se o fio deste olhar
fosse corte em meu peito
(que, tal flor, abriria)
para que me visses o avesso...

Se numa tomografia
analisasses
meu amor em fatias...

Se me radiografasses
pra me ver aqui dentro
em profunda fotografia...

Se, estetoscópico,
internamente me ouvisses...

Se eu me abrisse
tu adentrarias?

16 de jul de 2008

Desembarque

Um adotivo caminha
pela sisuda cidade,
desnaturada Medéia.
Capital do impreciso traço,
do passo ritmado,
da perda do siso.

Observa a selva.
Urbe medusamente
esparramada,
de peças mal encaixadas.

Um olhar furtivo
pousa nos bicos dos seios
da catedral da Sé,
que amamentam sonhos tísicos.
Picos que perfuram neblinas,
ozônios, garoas.

Adentra a esquisofrenia:
muitas vozes,
muitas máquinas
escarram flores carbônicas.

Ela, cinza, concretiza
um solo árido.
Um útero
teimosamente semeado.

15 de jul de 2008

Declaração

Nada a declarar à imprensa!

Nenhuma renda ou posse
que valha a pena
dar satisfação ao Leão!
(só à poesia vale a minha pena)

Na certidão,
nos papéis oficiais,
nas notas públicas impudicas
(é preciso descarar!)

Declaro:
é preciso declarar o amor!

14 de jul de 2008

Sob estrelas

No palco gelado
a nudez
embebida de fogo
despudorada
baila.

A platéia prateada
aplaude em coro,
corada.

Vestígios

O vestígio
do poema tinge o lençol,
verte onomatopéicas sílabas
libidinosas, extintas.

Tuas tintas apimentadas,
um resto de verso
respingado no tapete.

Marcas de dentes tatuam,
tateiam faíscas
tempestivas.

Tuas pistas
que me vestem
de um gozo vestigial.

1 de jul de 2008

Desvirtual

Conectados,
um atado nó internético.
Arrepiados rebites,
desritmaquinando.

Replicantemente
implicante pulsação
no coração andróide:
sucata machucada.

Das engrenagens
amassadas
do meu maquinário
pende cibernético néctar:
lágrima oleosa.

26 de jun de 2008

Riso

Se tu ris

este riso doido
descabelado
caliândrico
soprando vestígios

este guizo
epidêmico
múltiplo pólen
contaminando

este riso
despetala-me

24 de jun de 2008

No jardim

Sentiu o pouso
do ser idílico.
Um peso quase lírico.

O par de asas
tinha cheiro de floresta,
de verde-vidro amarelado.
Tinha voz de sal.
E borboleteava sorrisos.
Bicho fugidio, alado.

Observou.
Sorriu com suas cinco pétalas pálidas.
E chorou um orvalho fresco.

Pensou...
- Por que jasmim
não pode metamorfosear-se em rosa?

18 de jun de 2008

Sinestesiada

Aquela saudade doce
melanciada,
vermelha ardia na boca.

O sal dos olhos despedidos.
Alagados olhos,
das mesmas muitas cores
dos mares alagoanos.

(meu calor caribenho)

Perfume
das tombadas carambolas no pomar
rompendo, derramando
amarelamente úmidas
no húmus.

A saliva apimentada
nos lábios.
A cachaça melada,
o mel dos corpos.

A textura branca de jasmim:
aroma preso na pele
arrepiada do frio.
É dia garoado
sob os cobertores.

Subitamente sinestesiada
a inodora, insípida,
anestésica vida.

12 de jun de 2008

Embriaguez

Bebo na tua pele os dias.
Inalo teu corpo etílico,
idílico.

Devoro as cores
licorosas
derramadas
dos teus olhos.

Mordo teu ébrio riso
multiplicado.
Teus beijos líquidos.

Cambaleio
entre as ondas sísmicas
dos teus cabelos.
Perco-me.

E quero-te mais.
Destilado. Gotejado.
Quero-te em muitas doses.
Puro, sem gelo.

28 de mai de 2008

Ninfa

Metamórfica.
Mede formas,
descarta casulos.
Novas asas,
flamejante par de luas.
Ávidas.

Camaleônica.
Formosa carne
tatuada de mistérios
despe-se de amorfas cascas.
Mata fusos imprecisos.
Dá vida.

Dialética.
Espiralada serpente
multifacetada.
Mitológica flor.
Reescreve linhas.
Da vida.

Fera transformítica.
Alada.

27 de mai de 2008

Capitu

És frêmito
em minha pele.

És fêmea boca,
pêssego úmido.
Ressaqueado
olhar machadiano.

(quero a ponte,
um arco,
pra estas íris)

Sou dissimulada poesia
que te beija.

24 de mai de 2008

Poesia

Minha poesia
vaidosa
mira-se no espelho
reflexiva,
atrevidamente.

Minha poesia
narcisa
é viva personificação.
Ela te olha,
oblíqüa monalisa,
sedentamente.

Minha poesia
egocêntrica
mete a metalíngua,
lambe a si mesma,
felinamente.

21 de mai de 2008

Tua impaciente

Somatizo.
Sintomatizo sentimentos,
dores líricas e literais.

Ansiedade espessa
circula no opioso plasma,
lenta artéria.
Matéria inquieta
se aboleta no tórax.

Impaciente desejo,
adoentado, doendo...
ardendo ulceroso.
Virulento gozo
contagioso.

Desejoso sonho
avidamente transpirado.
Febre delirosa,
prosa desconexa,
salivácida.

Juízo gangrenado,
em irreversível coma.
Benigno? Maligno? Digno?

A desmedida da cura
vem em doses distalentas.
Falacioso placebo.
Remédio rimado.

A medicina diz incurável.
Indiagnosticável.
Insano.

20 de mai de 2008

Insônia

Olheiras enluaradas.
Olhos neblinados
de insone silêncio.

Infinda madrugada
insoniada de ti,
brotando sonhos despertos.

Brancas paredes:
folhas caladas.
Toco-as a giz,
escrevo um grito,
estremecendo concretos.

As paredes mudas
florescem em pétalas rajadas,
flor madrugada.

E abrigada de rabiscos,
cubro os olhos.
Nino de poemas
as olheiras já minguantes.

18 de mai de 2008

Pressão

Sons socam as têmporas.
Dor temporal.
Tua tempestade em minhas artérias:
repressão circulatória.

Tempo espesso,
giralento mundo,
insípida sede
(de versos, de ti).

Pálpebras pendentes
(hiper tensas).
Um aperto.
Pressão, impressão difusa,
confusa pressa.
In pressionada mente.

És poema impresso
inexpressivo
no meu mundo de pura
im-pressão.

Palavra

Repentina palavra-flor,
piegas letras petaladas.

Palavra insone
rebuliçosa no peito.

Palavra foragida
desaforada.
Arfante faísca.

A palavra bebeu vodca.
Cambaleou.
Vazou de mim,
lágrima transbordada.

Pousou nua em tua mão.

14 de mai de 2008

Respiração

Inspiras, expiro.

Inspiras
poemas mil em mim.
Expiro,
morro em cada verso.

E revivido respiro:
dos choques,
dos teus elétricos olhos.

Constante
sístole e diástole:
és poema
bombeando pulmões,
vias, vida.

Inspiras. Respiro.

12 de mai de 2008

Oração

A frase laminosa desilumina a noite.
A frase fura, injeta espesso veneno
no firme músculo da razão.
Descoordenada oração adversa.

A ponta, o ponto final frasal
perfura o escudo toráxico
desarmando... desamando.

E uma sintaxe sentida
impregna no sistema circulatório
seu plasma, licor mortal.

Como é que uma frase destas
ao sair pela boca
não te amarga a língua
não te seca a garganta
não te gruda os dentes
não te dói na espinha?

Cala as frases dolorosas.
Quero desta boca
só o poema mais beijado,
coordenando (c)orações.

9 de mai de 2008

Fesceninidades

jorrada

..............das grutas úmidas
..............das gotas oníricas
..............dos contidos recônditos

..........................minha prosa líquida
.....................................................goza
.........................................................literapura.......
................................................................................:
................................................................................:........ . . .

Baile de Más-caras

Mentira:
Máscara aveludada
que brinca no baile.
Brinda os medos,
embebeda.

Más caras,
ocultadas finas damas
mesclando verdades.
Faces sem olhos.

Caricatos falsos risos
embaraçando as serpentinas.
Trançando tramas,
tramando rimas.

Mentira:
Orgia mascarada
nas sombras do jardim.
Falsas peles suadas,
sintéticas.
Embebidas em gim barato,
perfume chinfrim.

Ácida,
derreto os panos,
desnudo rostos.
Faces azuis cadavéricas.
Tolas piritas
desfantasiadas.

E cubro meus olhos,
máscara de cetim.
Deixo nua a boca:
para teu beijo
de mentira.

8 de mai de 2008

Sem adjetivos

O verso
era fome, era sede.
E a sede era tanta!

A boca da moça
era rima, era corte, era fruta.
Era mais.

O sonho era corpo demais,
tão cheiro, tão cor.
E que gosto!

Nas portas dos olhos,
nas brechas do peito,
tudo era tão muito!

Que a menina,
passeando
pelas palavras,
pintava, coloria.
Adjetivíssima.

7 de mai de 2008

Jura

Semivogaleie meu atraverso...
Complexa carne de nuvem,
que de tão leve,
tão viva,
tão lírio,
fere.
.
.
E eu juro sangrar a vogal
e a haste da semínima,
escorrer as canções,
as guerras,
feridas.
.
.
Juro despetalar o monossílabo,
ser gota áspera na goela,
arrepiar todos os pêlos
do núcleo do sujeito.
Seminua
sílaba.
.
.
Juro ser incoagulável corte,
fenda descosturada,
uma pontada
nos contos,
na fada.
Doer.
.
.
Juro ser o fio da flor afiada,
púrpura pétala cortante,
atraversar a semivogal,
ferir no verso último.
Ser uma injúria
em Julia.
...
.
.

5 de mai de 2008

Sede

Mirar-te,
disparar de meus olhos
flecha flamejando
salivante desejo,
despido, despudorado.

Ser adaga salivosa
cravando-te tetânica infectante,
absorvendo a carne,
contaminando-te:
minha peçonha doce
em tua pessoa.

Ser lança lírica
deslizando alcoólica,
ferindo-te deliciosamente
de minha arma amorosa.

Libidinosa.

Queimar-te sedentamente
em meu corpo, chama tremulante,
queimar-te vivo,
ávido, lascivo.

Beber-te
libertinamente.
Para sermos nascente,
desnudos, estáticos, mudos,
deitados sobre lençóis freáticos,
deleitados.

Levar-te em meus rios,
abraçar-te dormente,
com meus braços galhos afluentes.
Infinitar teus ébrios sentidos
em minhas águas fluentes,
ceder, calar a sede,
ser em ti
fonte infinda.
Ser-te.

30 de abr de 2008

Sem receita

Éramos.
Erramos o tempero.

Sentimento azedado.
Uma fruta passa.
Fio doce da
calda melada saudadente.
Saboroso medo requentado.

Um olhar salgado
a despedir-se
liquefeito...

Hora de pedir
menu renovado.

28 de abr de 2008

Violenta

Tema-me.

Meu toque chamuscado
minha saudade violenta
meu dilacerado verso violeta.
O fogo pelas ventas,
minhas vísceras versadas,
vias lentas.

Tema
meu anátema, meu tango,
meus olhos embriagados.
O vento furacão
rebentado do meu peito.

Tema-me
no poema irrompido
na dor repentina.
Tema este tema mal escrito,
este rito macabro
de poeticamente sofrer.

Tema
meus dentes carnívoros
minha fome monotemática,
sintomática da saudade.
A voracidade,
impetuosidade inebriada.

Tema perder-me.
Amando-me hiperbolicamente
em cada temeridade,
em cada tremor desafinado.

Tema-me,
violenta-mente,
e durma sem medo em meus braços.

18 de abr de 2008

Cura

I

A noite
banha fria a febre.
Os tecidos macios do tempo
enxugam o pranto, a pele.

O nascente sol
dissolve, antiácido,
no estômago,
a dor mal digerida.

Doses diárias de cura.

II

Palavra
analgésica,
verso curativo.
Carícia morfinada
sobre a fina dor.

Um verbo
suturando a ferida
estancando a alma sangrada.

Um verso
que beija a face
sorvendo o pranto.

Só na poesia
um punhal é metáfora de papel.
Tu amassas e joga ao vento.

Ampulheta

Relógio de areia:
fagulhas de tempo
que se deitam obsolentas.

Sonolentos grãos
de saudade cronometrada
quilometrada.

Nascente arenosa
sob envidraçada redoma
(siameses cálices):
A medida do sentimento preso
no tempo que falta,
no espaço que sobra.

Uns sonhos presságios:
pedágios.
Dissolvidos no Saara da ampulheta.

As mesmas dour'areias,
dos meus relógios,
das tuas praias,
que preguiçosas se esvaem.

11 de abr de 2008

Silêncio III

O sol range,
ergue-se à manivela,
enferrujado, cinza-alaranjado.

Motores respiram,
carbônicos.
Buzinam neuróticos.
Brutas britadeiras
mordem o magma do asfalto.
Manhã maquinando
desafinada.

Entretanto, ao meu redor
emudeceram
o maquinário, a britadeira,
as frigideiras, as buzinas,
os camelôs, o sol.

Ouço só seu silêncio.
Sintomático
sinestésico
amnésico
silêncio
...

10 de abr de 2008

Silêncio II

Garoa...
fino lençol de silêncio
sobre a cidade.

Meu gole mudo
parabrisado
contempla na vidraça
teu silêncio garoado.

Garoa sorrateira, surdinosa.
Silenciosa,
não batuca nas janelas,
não troveja.

Desavisada.
Não escorre, não soluça, não deságua.

A garoa
é só esta mágoa
peneirada.

8 de abr de 2008

Silêncio

Uma pausa.
Chuva que paira
em lágrimas estáticas.

Uma pausa
no perfume imaginário da flor
no baile verde das folhas
na queda madura da fruta
desgarrada da mãe.

Uma pausa.

Que engole a nudez
da minha palavra desabraçada,
abandonada em tua mão.

Uma pausa
na respiração dos relógios,
que apenas dormem
em circulares horas silenciosas.

2 de abr de 2008

Armadura II

Rachadura erosiva
acaricia meu rochedo.

Bailes tectônicos
me abalam, sísmicos,
ampliam as frestas.

Incisão decisiva
beija a pele da muralha.

Escudos baixados.
Desmanchados punhais.
Soldados desertados.

Um verso atravessa,
rasga o aço da armadura,
sem sangrar.

Porque todo metal derrete
neste meu ponto de fusão.

Ácida

Deleita-se a contradição.
É um limão e uma lima,
uma rima desritmada,
um riso rugindo.

Agridoce temperamentada,
fermenta raivas picantes.
Aromatiza de lilases
a quaresma.

Incendiária ebulicionista,
artista desroteirizada.

Uma orquidácea poetisa,
inferniza...
acidifica a primavera,
floresce no cinza.

26 de mar de 2008

Tática

Tic tac tic tac tic tac
Tanta hora tanta hora...
Não estar contigo:
ártico atípico em mim.

Teu distante toque,
átomo que resta
tateando-me
tac-ticando tac-ticando...
a mesma temática.

Tempo tempo tempo
Ponte-continente
Lento ponteiro

Teus olhos
vitrais absínticos
piscam tic tac tic tac...

Distância:
tua tática cortante
que ataca-me, ata-me
tac-ticando tac-ticando...

25 de mar de 2008

Tempos de amar

É imperativo afirmativo
infinitamente viver.
Meu infinito infinitivo
enfim
num gerúndio continuado.
Infinitando... Alfinetando...

Neste indicativo presente
amo
a primeira pessoa.
Mas a segunda
é um tu
cheio de tesão.

Oscularia
aquela terceira
num futuro do pretérito
não preterido, preferido.

Também fui feliz
nos braços daquele passado
imperfeito, defectivo.

E se pudesse,
violaria a liberdade condicional
de um confuso subjuntivo
subjetivo.

Conjugo no plural:
revolucionar o mundo.
Nós
num futuro mais-que-perfeito.

24 de mar de 2008

Boneca rubra

Dorme, criança
emaranhada.
Porque em teu sono
descansam afiados trovões.

Dorme, boneca cacheada.
Cerra tuas labaredas,
teus universais olhos,
tuas longas cortinas de cílios.

Dorme, pequena bruxa.
Tua porcelana pintada
cobre interior ígneo,
rochedo em marcha
a exorcizar espectros.

Dorme,
russa matrioshka,
em teu vestido rodado.
Porque teu sono nublado
prepara, sereno,
uma alvorada desalienada.

22 de mar de 2008

Elo

Garganta
que jorra o banzo e o guizo.
Dentes que beliscam
o universo com um sorriso.
Que são liras
Que são prismas.

Tu provocas, tu esfinges,
com a boca que é foice, é fruto, é flor.

Música
que brota dos dedos, dos pulsos,
dos olhos de semicolcheia,
dos pés que bailam
no palco das veias.

No momento blue
a poesia estava ao meu lado:
Era elo, era ela.

20 de mar de 2008

Poema cuspido

Perdoai
o anarco-verso caótico
revestido de capital,
a gota de lírio
cuspida no asfalto.

Perdoai
o espontanilirismo
neo-romântico
das desaguadas secreções.

Perdoai
as vísceras expostas,
o violento clichê,
o libidinoso neologismo
não planejado.

Perdoai
o verborrágico
o verso hemorrágico
sintomático deste carnaval.

Perdoai,
ela não sabe o que faz.

Desfragmentação do poeta

Poeta em pedaços,
pirata sem caneta, sem proa,
imprudente,
ensaiaste abortar o verso.

No ralo
o sumo de um grito
a raiva, a bile,
o soneto não expelido.
Estancas a seiva
que supre verdes dias,
o sangue, a dor diluída,
o sal líquido dos olhos,
os óleos petróleos
que irrigam labaredas.

(...mas uns sedentos
violam lentos
tua sala cirúrgica,
defendem futuros rebentos...)

Não temas
teu poema-diário,
teu confessionário,
teu bandido heterônimo.
Não temas
o anátema, o parto.

Desfragmenta os versos,
teus frascos de sonhos
quase amputados.
Costura o ventre
das abandonadas estrofes
ofendidas.

Teu verso quase extinto
não precisa de lápis, tintas.
É bisturi.

18 de mar de 2008

Tango mal bailado

Ora somos simetria,
pernas e verbos conjugados,
engrenagens engatadas.
Um desejo,
uma coxa que te escala.
Pernas lascivas laceiam-se.

Ora bailamos um contra o outro,
marcha empurrada, ritmada,
batalha de contraditórios.

Casal de verbos
descompassados:
te machuco, tu caminhas,
eu caminho, me machucas,
me machucas-te.

Eu te conduzo, tu me conduzes,
deslizando círculos,
mil voleios,
espirais históricas,
felino passeio.

Tecidos mal contornam
os convexos da carne.
Carnívoros versos
deslizam, ruborizam
o bandoneon.

Uma caminhada purpúrea.
Una marcha roja.
Dois aromas que se mordiscam.
Tão emaranhados
que ainda entre batalhões
marcharíamos entrelaçados.

Pero
tuas passadas cruéis
perfuram minha harmonia
de corada face.
E já somos freios bruscos
no breu fosco do palco.

Há desencontro, desencanto.
Corpos formam cantos,
cantam sinuosos versos,
pés circulam sonhos.
Tangamos,
tombamos
em ângulo oblíquo
apontando vértices e sapatilhas.
Adagas e ganchos
perfuram o palco.
...
(Compasso de espera)
...
Sangra uma blasfêmia
entre os seios.
Tomba a rosa.

13 de mar de 2008

Celina

Em São Paulo
não há céu.

Densa bruma
cinzento véu
veste a capital.
Sinistro dossel.

Sem céu
chora a garoa,
escorrem tristes
os metrôs.

Não pingam estrelas
na capital sem céu.

Busco céu
nas anônimas esquinas,
nas vitrines
nos celestes edifícios
nas avenidas celinas.

Ai, que saudade
de cel.

11 de mar de 2008

Mescalina I (ou Conversando com o Aldous I)

Abro pupilas, portas, peito.
Percebinfinitamente.

Alucinógeno cacto
potencializando sentidos,
hiperbolizando
sinestesias.

Alucinações,
explosivas metáforas
vivas como elefantes.

Insanidades e
pupilas dilatadas.

Poros e vasos abertos:
sentindo mais o mundo.
Desacelerada
respiração.

Próxima morte
overdósica,
dose dupla,
dose múltipla.

Minha droga, meu vício,
minha mescalina,
meu alucinógeno verso.

Mescalina II (ou Conversando com o Aldous II)

Abro pupilas, portas, peito.
Percebinfinitamente.

Salivo-te,
aspiro inspiro respiro
a baunilha, o leite.

Sorvo teu acre azeite,
ímpetos liquefeitos.

Bebo o olor dos pelos:
cidreira pisada.

Lambilentamente
em linhas íngremes,
percorre os pudores,
os cheiros.

Dez bocas
chamuscam a derme.
Dormem as pálpebras.

As notas tocam, disformes,
tangos, vozes, carnes.
São sussurros
tateando concavidades,
completando o blues.
São zumbidos
mal vestindo, arrepiando
os convexos.

O quarto
é um quadro expressionista,
ondas de Munch,
um disforme
gabinete de Caligari,
em cores.

Frêmitos
irrigam a carne.
Fusão, labareda espasmódica.
Ponto de ebulição
que percorre pernas, ventre,
enverga o tronco
crepitando.

Navegando em endorfina,
interna morfina,
o corpo canta.

Mescalina IV (ou Conversando com o Aldous IV)

Abro pupilas, portas, peito.
Percebinfinitamente.

Há uma dor
pulsando
na sarjeta da capital.

Há um fedor
espumando
nos dentes da cidade.

Uma sopa de
rachaduras,
cinzentos letreiros,
palavras sem idioma.

Lares e sonhos de papel.
Céu ausente.

Mescalina III (ou Conversando com o Aldous III)

Abro pupilas, portas, peito.
Percebinfinitamente.

Dissolvido no álcool
o sumo da noite
o sono, a súplica.

A cor da aurora
na fresta
mescla o mate,
o turquesa, o ouro,
o sangue.

O vento pousa
nos verdes
nos sabiás
na nudez.

A garoa cessa.
A capital acorda.
Automotores rugem.

10 de mar de 2008

Marina

Mira a menina,
a sina,
a alucinação,
a beleza felina,
florina.

Mole menina,
ilumina o breu da mina,
a ferina.

Mira a menina,
mira a maré
da retina.
O mel da crina
cobrindo branca lira.
Mira!

Mira a brisa
do mar de Marina
mira suas mechas,
e os medos
de mil marinas.

Mira os marujos
mareados.
A maresia
dos mortificados.

A menina
nina o sono
dos naufragados,
dos libertinos.

Fina menina,
desta redoma,
deste destino,
desta rima,
me redima.

Armadura

Grades líricas,
lanças, lírios
não podem me ferir.

Cobrem est' alma destilada
sólido rochedo,
armadura de músculos,
rígidos alicerces,
ossos de aço.

As feridas
bordaram calos.
O sangue coagulou,
rejuntou meus tijolos,
minha muralha.

Apenas o júbilo
vê janelas em mim,
frestas na fortaleza.

Armada.
De punho férreo
e vísceras de nuvem...
De olhos amalgamados
e pulmões arejados...
De poesia interior
e voz em riste...
Enfrento o mundo
e o teu sorriso.

7 de mar de 2008

?

É teu ou meu
o poema?

Busco o beijo na bala
e verso-te.
Multiplico-me em teu riso
e palavro-te.
Desmancho-me na memória de tua pele
e silabo-te.

Deleite meu
é usar-te,
alimentar minhas veias,
meus brônquios,
meus poros,
da poesia
que me provocas.

4 de mar de 2008

Toque

A noite
embriaga-se
do invasivo aroma
da ausente carne.

Destila o caldo
de um gesto.

Sedenta,
bebe as gotas
reprimidas,
espremidas
de um sorriso.

Embebeda-se
de vulcões internos,
infernos líquidos,
fervores.

A noite alvorece-se,
é pluma na face,
úmido toque,
uma gota de tez,
um segundo de ti.

29 de fev de 2008

Vácuo

Descontém dor ou alegria
o infeliz despreenchido vão
do êmbolo que (não) bombeia
o sistema hidráulico das veias.

Um não-espaço vazio, cheio de nada
transborda coisa alguma
repleto de tudo que diluiu
ausente da vida que desfloresceu.

Distância

Abismais fusos,
longifronteiras,
demoradas horas ausenteiras.

Quilometrais dias de vácuo,
versados, lacrimais.

Distausente moço
desmemoriado,
no esquecimento
perder-me-á?

Dançarindo

Danças
com a audácia com que os deuses jamais dançaram,
com a violência súbita de um poema urgente,
com a ternura com que serpentes brotam do solo árido,
com o ímpeto dos rubros outubros.

Erótica e lírica
é tua carne que se multiplica
Flutuas, disseminando o aroma dos deuses,
desafiando o bailar dos versos, dos pássaros, dos dias.
Renegas os compassos marcados
Das folhas embaladas pelo vento,
Da garoa ritmada da capital,
Dos tangos sob lençóis.

Danças, ou é apenas o universo
que decidiu contornar-te,
girar regido por teus dedos?

Teus sorrisos de incontáveis dentes
dançam, mordem, rasgam a noite,
luzindo-a de prismas.

Os sons do mundo se empalidecem
grades e garras se dissolvem
chamas derretem, vertem lágrimas.

Anjos e demônios
passam a existir,
contorcem-se num baile de medos.

Danças como quem floresce,
animal de pernas e mãos multiplicados.

Nada respira,
porque todo o ar se ocupa de teu baile mágico
solitário.

De teu nome cristão,
de tua presença terrena, material,
de tua dança demoníaca,
eu não ousaria aproximar-me.

Despertar

Eles acordaram!
É tempo de vida, reprimida canção!
Não há mais lágrimas, ínfimas dores se vão.
E eles despertam!

Explodem os passos
da multidão de palavras desgarradas,
manada estourada.

Eis o sol levantado e a noite acordada,
a caneta viva e o punho erguido.
Eles despertam,
raízes entranhando-se na terra.
São brotos que rasgam solos úmidos,
são teus dedos entranhando o peito meu,
bombeando ar e sangue,
e lume e seiva,
e vida e verso.

Desobstruidores de pulmões e vias públicas.
Destruidores de mansões pútridas.
Ei-los como pedras contra o batalhão de choque,
como toque petalado em tua alma,
como calma bruma.

Subitamente acordaram,
velhos naufragados,
insones insolentes,
descontentes incomodados.

Eles rompem grades, voam de janelas,
sobem nuvens, exalam eucaliptos,
rodopiam saias, carregam bandeiras,
dissolvem-se no sangue e na vodca,
vívidos...
Ei-los como vértices
perfurando a carne dos desavisados.

Ei-los acordados
numa agência bancária, numa urgência incendiária,
fartos dos números,
do fétido câncer capital.

Ei-los despertos,
abertos, perversos,
meus sufocados versos.