18 de dez de 2010

Guardados

Fazem bem
as nostalgias e os analógicos
presos na relojoaria.
Ouvir vinis
e bem-te-vis na janela
e pequenas velharias.

Às vezes
prefiro o verso
datilografado.
Guardo amores mofados,
uns trecos,
grampos, pregos,
potes usados.

Prezo muito
este pó
sobre os retratos.
O paletó demodê
e o buraco no sapato.

Gosto de deixar
as melhores palavras
alí na caixa de rascunhos
para serem comidas por traças,
envelhecerem safras.

Gosto de passear
no cheiro grisalho dos sebos.
E do amor
que não é para agora.
Guardá-lo
num velho livro
ou naquelas caixas bonitas
que não se joga fora.

Deixa.
Que a pressa não faz bem
nem ao vinho nem ao poema.

Deixa.
Que o coração é grande
e está cheio de cacarecos.

17 de dez de 2010

J'ai lu des fleurs

Do velho hábito
de guardar flores secas
em livros preferidos,
reencontrar os cheiros
em releituras,

te guardo,
te releio,
Lee Flôres.

15 de dez de 2010

De coeur

O verso que a musa
memoriza
já estava lá.
Porque ela nasceu
sabendo-se.

Ela sabe tatear
a tatuagem profunda
que se fizeram.
Invisível
dentro da carne.

Ela sabe de cor
de corpo
de coeur
o beijo.
Decorou
a cor mais precisa
de cada acorde.

De olhos fechados
a musa
sabe de cor(ação)
a canção.
Reconhece
o crepúsculo corpo
que lhe dá a mão.

(Para Nathália, musa tomada emprestada, sem licença)

14 de dez de 2010

Caminhar

O que me alimenta
é caminhar.

Vou me nutrindo
do barro
no qual se fincam meus pés
a cada passo.

Enraízo-me.
Do húmus,
restos, folhas, vermes,
faço seiva e verso.

Saciados
pés de mandrágora
decidem:
E não sem dor
arranco-me
sempre.

1 de dez de 2010

Medusa

Por um segundo
me amas.

E em tua camisa
minhas madeixas
serpentes
mambas negras
vivas
se enroscam.

Por um segundo
encaras meus olhos.
O verso
veneno via iris
tão narciso quanto meduso.

Miras o verso
por um instante
suficiente.

E em teu peito
eu
petri
Fico.

23 de nov de 2010

Eu cedo

O que dar ao poema
que acorda?

Eu
de leite.
Um resquício
de madrugada sonhada
insiste.
Derrete no pão.

Aroma fresco
nos poros do filtro
coando
destilando flores.

Colho o trigo,
reconheço
a estação, a safra
salivando o açúcar.

A fome matinal
do poema
cede
sabe.

É cedo ainda.

16 de nov de 2010

Indício

Sei da terra erodida
dos grãos que ficam
de sulcos rugas

da então dor
do lábio
medo humano
de se dar e se morder.

Mas se eu orvalhar
na terra, na verde folha,
uma saliva suficiente
ou jorrante,
não tenhas dúvida:
amanheci.

13 de nov de 2010

Flores

Entre nós
uma geografia inteira.
Caatingas, cerrados, concretos,
estados, trópicos, fronteiras.

Eu sei.
Não há espaço
para o toque utópico,
o metafísico.
Não há tempo
para o verso
que não caiba
no estilingue.

Mas te prometo
um amanhecer
em que apenas os pássaros
não façam greve,
em que as flores
ousem cobrir
violentamente
o asfalto.

Então seremos,
tu e eu,
flores.

(Para Lee Flôres, pois eu não me canso da expressão pré-fabricada existente em seu nome)

4 de nov de 2010

Provocação

Hoje
eu quero adentrar
na vagina úmida
da palavra sexo.

Quero que bocas,
seios, pênis
signifiquem
exatamente o que são.
Lambê-las todas.

Hoje
não meto metáforas,
metonímias, eufemismos.
Ainda que haja
de leve
uma metalíngua,
esta poesia
apenas penetra
o literal.

Hoje
vou chupar a palavra pênis
em cada letra, pingo e gota
até ela ficar bem feliz.

Só hoje,
nada de sutileza.
A poesia
vai dizer safadezas
em seu ouvido.
Escrever será um prazer.

E no clímax,
no ápice da palavra clítoris,
a poesia vai gozar.

E você vai gostar.

28 de out de 2010

Pro fundo

Isto
de não ficares
nas superfícies.

O abissal
das contradições.
Tanta delicadeza e voracidade.

De ter nos olhos tristes
uma maciez, um abracismo.
Nas mãos uns colibris.

E nas mesmas mãos
trovões desejosos.
A fome de encaixar-se
tão dentro em carne.
Envenenamento.
De apertar
rente
demarcar
o branco reneg(r)ado da pele.

O teu não saber se ater
à superfície.
Ultrapassar
a margem lábio.
Mergulhar.
Pedra rompendo
pele calma
das águas minhas.

Se te levo
iaramente
fundo
em meus lagos,
cabelos, unhas, peito,
é por seres
já tão profundo.

27 de out de 2010

De(s)dicatória

A poesia não diz.
Mas contempla teu nome
pré-fabricado
e não evita
versar a primavera.

Ela lembra
o beijo ausente,
pressente o corte.
Tergi-versa a dedicatória.

A poesia arre-pende?
Ela tende a ser tua
tende
a tocar na pele
um acorde meio Hendrix.



(Esta é para Lee Flôres, poeta apaixonante do www.expressaoprefabricada.blogspot.com , que contém flores em seu verso, em seu nome, em seu ser. E, mimado, gosta de dedicatórias.)

22 de out de 2010

Das posses

O poema
sem dedicatória
verso ouriço em tuas mãos.

É tão teu que o provocaste.
É tão meu,
que ofertado
permanece prole minha.

Mas exposto
ele caminha
solitário prostituto,
ama, serve, cabe bem
a outrem, a qualquer.
Veste as cores
de quem lê.

O poema que te fiz
sem selo, destinatário, remetente,
alcança mais.

Sendo teu o meu poema
não dedico.
Abdico.

Boneca Rubra 2


Fora.
O poema vermelho insuficiente
desalvorece em ti.

Mas dentro...
no ventre ventrículo
coração
de boneca russa
bem dentro dela
e dentro dela
e ainda mais dentro
e repetidamente dentro
epicentro
sempre

és o poema mais bonito.

19 de out de 2010

Verso Cego

Penumbrou-se
a poesia.
A retina ardia
uma escuridão.
Ainda assim,
li flores em teus olhos.
A densidade das hipérboles
dilatando pupilas.

Éramos
platônicos personagens
na caverna.
Estalactites.
O medo da fresta
aguardando o facho
da palavra luz.

Éramos 33
fomes e sedes chilenas
presas na mina germinal
centro ígneo útero
da terra, que sempre erra
o resgate.

Nem o pernilongo.
Nem a estrela.
Nem o beijo.
Nada ousou rasgar
a cortina da noite.

O verso
apenas adormeceu
no invisível som
do respirar.

15 de out de 2010

Maldizendo


Não se encruzilhe.
Poesia é mandinga braba.

Se a caldeira
desavisada
ferve.
Não vá misturando
pitada de verbo
línguas de metáforas
gosto sinestésico
de luar...

Não arrisque
alquimia de significados,
ricos sabores neológicos,
pois o molho
unguento
cozinha...
será inocente o que virá?

Não se iluda
com a magia
das assonâncias,
a ousadia
nos ouvidos
das moças.

Poesia não é coisa
do céu.
É obra do cão.
Macumba,
urucubaca...
não larga mais
a sangria intermitente.
A prosa tinhosa.

Pensa que impunemente
pode ir criando cântico
que alcança o âmago
e faz do olho uma nascente?

Prepare bem o ebó
de peito aberto
e corpo fechado.
Poesia é negócio feito
com sangue e alma.
E o Coisa-ruim
cobra em espécie,
líquido e corrente.

Não invoque o mundo
esta suposta
encruzilhada
de olhos malaguetos.
Esta sensação de incômodo.

Depois não haverá remédio,
exorcismo, quebranto
que a arranque
o nódulo do peito –
essa paixão no estômago.


(Por Yara Fernandes e Lee Flôres)

4 de out de 2010

Perto

Dançar:
um estar
tão perto.

Doce sangria
esta salsa, este cio.
Tua força
verso vivo
a enlaçar minha cintura.

Tão perto.
Que a acidez transpirada
me transparece.
Que nossas epidermes
são síntese úmida,
simbiose.

Tão perto.
Que nossas células
secretam
seiva e receios.
Como se dançar doesse.
Como se a dor de dentro contorcesse.

Tão perto
que tantas as partes
dos nossos corpos
se beijam
inconsentida
e inconsequentemente.

Tão perto
que nunca perto
o suficiente.

30 de set de 2010

Kafkiana

Crisalidamente protegida,
durmo até que as cores
me explodam
e os versos voem.

Eu canto até me abrir,
desfazer o exoesqueleto.
Máscaras descartadas.
Romper a casca de quitina.

Descasco-me.
Abandonando
um eu lírico, um heterônimo.
Metáforas e metonímias
em mutações genéticas.

A poesia se move
tectônica como os continentes,
como o samba dos teus pés.

Em seu suco amniótico,
eu morro e nasço
em cada verso, cada paixão.
Sempre feto.

19 de set de 2010

Resíduo

O mesmo dia.
Terra tonta
rotaciona
sem translação.

O mesmo café
engolido de pé na estação.
Mesmas faces sonolentas no trem.
Lugares demarcados.
O feijão
repetidamente ruim.

Cansaço acumulado,
rugas, cicatrizes
lentamente
usinadas no corpo.

Apenas no corpo
o tempo passa,
se acumula.
Lá fora
o dia rotaciona,
reamanhece
sempre tão igual.

O corpo
apenas aguarda parar.
Aguarda o trem.

Mas se acumula no corpo
mais que rugas
mais que pó.

No corpo
nasce a poesia
flor inesperada e súbita.
Nasce em silêncio,
devagar.
Nem o sol a percebe.
Quando se vê,
já é rubra,
procriou.

Fará mudar
o corpo
o tempo
os dias.

Segredo

O clichê da lua cheia
absorveu a umidade do ar
e de pranto inflou-se.
Garoou.
Desorbitado
olho inchado de chorar.

Um amarelo envelhecido
da cachaça entornada
espalhou-se em sua face.
Imensa e redonda
a dor da lua.

Ninguém sabe.
Mas ela é apenas
reflexo satelital,
dor retroprojetada
de dentro do centro
gravitacional
do meu uivo.

Re-vida

A fera em ti
me rasga.

E eu, ferida,
ainda duvido.

Em mim, a dor
de teus dentes,
de teus olhos camaleônicos.

A mordida animalesca.
A fresca carne
que se rompe sem esforço,
desabotoada.

Púrpuros botões
brotam da fenda.
Porta violentamente aberta
entre os seios.

Minha dor
desgarrada sob tuas garras.
Desfiada entre os dentes.
Desafiada.

Minha dor
presa nas grades da cadeia
alimentar.

Minha dor
seiva quente
escorre em teus caninos
esvaindo vida.

E eu, ferida,
revido!

3 de set de 2010

Laços

Deitada ao teu lado
desejo laços.

Ata-me.
Punhos, olhos, pernas, sexos, fluidos.
Atemos
orgasmos em única gota.
Tatuemo-nos
com dentes, unhas.

Reatemos
nossas estradas e paradas.
Jasmins nos cabelos,
poesias em parceria.
Atemo-nos
dançando sons vulcânicos.

Deitados
os corpos atados:
uniforme emaranhado de membros.
Polvo humano deleitado.
As gotas transpiradas,
os fluidos nectares,
nossos elos melífluos
escorrendo pelos vales
entre meus e teus músculos.
Rios antes tão febris magmáticos,
agora repousam:
calmas águas termais.
Enlaçados afluentes.

Deitada ao teu lado
concebo e alucino
idéia mais profunda de laço:
espiralando-nos
nossos DNAs entrelaçados.

25 de ago de 2010

Sobre Flôres

A pré-cisão da fabricação do verso.
Funciona.

Um sempre dizer amor
até quando o amor não ama mais.
Um acender e apagar de estrelas.
Matutinas? Vesperais?
Apenas versos breves de açúcar,
brevidades no café...

No cálice:
Vodca engatilhada? Lágrima decimal?
Expressão de sim e não.
Platônica paixão:
amor-ideia morando na palavra,
nos repentinos repentes.

Em ti
li flores
(ora rosas de mercúrio,
ora ensolarados jasmins).

Por vezes,
mesmo em flor,
li o sangue talhar no semáforo...
E tuas mãos cintilando,
aparando as cores do poema que escorre.

Se te levo no peito
(Flôres na lapela),
a ti separo uma rosa
(esta)
que declare guerras e amores.

19 de ago de 2010

Silêncio IV

As grades dos dentes
retendo a sílaba
o sorriso
o beijo
o penúltimo poema.
Rangentes caninos
regendo as notas
sinfônicas do silêncio.

Silêncio cimentando sequelas.
Entoa sarcástico no estômago
um banzo silencioso.
Dilúvio no copo. No corpo.

Despido de sons
o corpo ainda dança
solilóquio
desnutrido
ossos à vista.

(Quem dera fosse o silêncio
apenas a aliteração deste verso,
triste insistência consonantal)

Ainda em deleite,
o corpo dança
a sátira do ritmo.
Síntese etílica na saliva.

Esquisofrênico
o corpo dança em silêncio.
Sem palavras
sem prosa
sem poesia...

13 de ago de 2010

Pequena

É tanta a poesia
que fecundas
em meu ventre,
que, quando nasce,
ela me arrebenta.
E não há leite que baste
para alimentá-la.

É tanta a poesia
plantada por ti
em meu útero,
e eu sou tão pequena,
que me engrandeço
para que ela caiba.

Marcília

Que se faça silêncio na sala
para que Marcília
pinte os cílios.
Minuciosa. Ensimesmada.

Se Marcília,
serena e sádica,
pinta os cílios desapressada,
se as pálpebras
assombradas e sombreadas
piscam
e, desacelerados,
os cílios curvilíneos
em revoada
abrem ventos e pausas no tempo...
apenas faça silêncio.

Nenhum som se emita
se os lábios entreabertos
se vestem de tons cerejais.

Se o espelho
é insuficiente
para a síntese pessegal
da face de Marcília,
só disfarce e observe a simetria.

Mas faça silêncio
para que os cílios de Marcília
não alcem vôo.

11 de ago de 2010

No Enquanto

Beatriz presa
na geografia quântica
do Enquanto.
O corpo paira
no espaço-tempo.
Beatriz presa no purgatório.

Beatriz no mar,
cúmplice do sal.
Permitiu que o vento se esvaísse
na fresta entre dunas.

Mas não.
Beatriz não fica em banho maria.
Ela ferve ou congela
ao menor toque.
Beatriz não ameniza.
Alquímica e empírica,
ela cura a seu modo as feridas.
É dessas que passeia na chuva
e só bebe o que for intenso.
Beatriz condensa.
Eutanásica,
recusa o coma, a sobrevida.
Rejeita médias aritméticas,
meios termos.

Beatriz
presa no purgatório,
a libido no limbo.
Diabólica, fabulística,
aprende a moral da história.
Recua.
O paraíso não existe.

Beatriz no triz da carne
recusa a prisão.
De dentro do Enquanto, fez-se o pranto
e ela não mais quis.
Mergulhou
tão abissal
no verso.
Nunca mais voltou.
Desenquantou-se.

9 de ago de 2010

Duvidando

Dúvidas
nos poros dos morangos
encobertas
pela condensação do leite.
Dúvidas em névoa.

Mordo cada dúvida
nos gomos da tua carne.
Dúvidas criando músculos.
Meticulosas, trabalhadas.

Dúvidas viúvas,
perdidas de causas,
enlutadas, resignadas...

Duvido
de resposta categórica
indivisível
indubitável
que as vença.
Ao invés,
divido contigo
os dividendos da dúvida.
As dívidas, as dádivas.

No fundo
a dúvida
é névoa
divagação...

5 de ago de 2010

Gole

Será veneno
ou será morfina?
Como brindar
se as taças estão
possivelmente preenchidas
com bebidas peçonhentas?

Como saber
se o conteúdo da seringa
mata ou chapa?
Se cura o câncer, se ameniza a dor?

Se o frasco não tem rótulo,
se não se sabe a safra,
a procedência,
se absinto, se cicuta...

Como saber
se a água é benta ou virulenta?
Se for seiva, sêmem ou sangue,
eu engulo? Jorro? Coagulo?
A fenda que escorre
eu estanco ou vampirescamente sugo?

O que fazer da lágrima?
Destilo margueritas?
Extraio o sal,
salgo a carne esquartejada?
Sirvo o pranto
em taças,
em doses dietéticas?
De ciúme? De cianureto?

Resta
arriscar o gole.

Verborragia

Ê sujeito!
Deixe dessas
adversativas!
Que nossas conjunções
são aditivas e carnais.

Não seja intransigente,
intransitivo, transitivo,
transitório...
Pois amar
é verbo de ligação.

Gás lacrimogêneo

Tudo o que era concreto
evaporou.

Restou,
lacrimogêneo e tóxico,
o gás da saudade:
partículas de memórias
envenenando pulmões,
ardendo nos olhos.

De lacrimogêneo,
o apartamento
virou câmara de gás.
Cianídrico.

O aroma
transbordando das panelas.
Os graus centígrados
dos lençóis.
O pH dos corpos ensaboados.
Na minha pele,
os átomos desgarrados do teu corpo
pelo atrito com o meu.
Todos os nossos pontos
de ebulição...

Tudo evaporou.
Mas não, nada se perde.
Tudo é transformação,
reação química, ou dialética.
Refazendo ligações covalentes.
Re-solidificando.

1 de ago de 2010

Palavras ao vento II

Abrapalavracadabra:
qual palavra chave
abre a trava
do teu coração?

Quais palavras serão aves
em sobrevoo
sobre teu sopro?

A palavra treme
cravada
sob teus dentes.
Tua presa e prisioneira.

Abrapalavracadabra.
Abra a palavra,
perfura a frase
a estrutura
transforma a palavra dor
em cura.

A palavra pede calma
colhe pedaços
forma sílabas súbitas
de um poema.

Afiados fonemas
palavrando
esparramando
versos no vento.

31 de jul de 2010

Abrir os olhos

Há um amor que não é cego.

Ele elimina o glaucoma
descortina retinas
revela o velado
o que foi vilipendiado
dispersa a neblina
para tecer teia entre nossos gestos.
Mata ou morre
apenas para ver a aurora.

Amor que é elo,
des
alien
Ação.

Palavras ao vento

O diabo é o vento.

Brinca de invisível...
Tentador,
esparrama aromas.
Ou manda a brisa
virar tempestade.

O diabo é vento,
movimento inventado.
Levitando saias,
eriçando pelos.
E abandonando.

O diabo é volátil
é o que se esvai
evapora
desmancha
dissolve
desprende-se
atmosférico.

É volúvel
vírus mutante
errante
efêmero
confusão difusa.
É o diabo este vento!

Pois que ele me tome
em seus infernais furacões.
Que sou pássaro
e sei bailar no infinito.

19 de jul de 2010

# Versificado


Folha de S. Paulo, 17/07/2010 - Negócios - Matérias Primas
www.versificados.blogspot.com

15 de jul de 2010

Concreto

Gosto da poesia
que nasce na casca do pão,
que rompe esparramando
migalhas de aroma na mesa
antes mesmo de nascer o sol.

Gosto da poesia guardanápica,
de gosto alcoólico,
soluçada no bar.
O verso exalado das camas,
nas cores vivas das vulvas.
Poesia pornodatilográfica:
filha das Olivettis.

Gosto da poesia que salta
dos calos dos dedos,
rascunhada no papel sujo
de suor e graxa.
Poesia que dói
as sedes humanas.

A poesia que nasce
suja de líquido amniótico,
que grita o parto,
que escandaliza.

Isso sim, é poesia concreta.

13 de jul de 2010

Jazz

Teu toque
é tão grave...

É nota improvisada
que me dedilha
trepidando cordas
bambeando pernas.

Um swing segue pelo sangue.
E eu solo.

Se teu jazz me toca,
eu deixo de ser blue.

12 de jul de 2010

Eitcha!

Abestado, o coração pocou,
levou uma pisa.
Quem seguiria
farrapou...

Resta um mal,
uma presepada,
uma biloura.

Restos de léxico alagoano
alagando.

Úmida
tua língua
em meu ouvido.

5 de jul de 2010

Manzana

Ana manzana
tentadora fruta temporã.

Quisera morder
tuas maçãs despidas
aquecidas em compotas
despudoradas, excitadas
curvas morenas carameladas.

Tuas coloridas carnes
cheias de sumo
cheias de samba
nas sandálias.

Quisera morder-te
fruta atípica
cítrica cabrocha.

Venha temprano,
Ana mañana.
Para eu amar-te
da raiz ao sumo.

O Carnaval

Ele não era poesia.
Era apenas um carnaval.

Uma festa sexual
colorindo sua carne,
um pecado úmido de vodca,
um beijo de morango e gengibre.
A máscara de um sorriso
pintada na boca.

Deixou um rastro,
um resto de fantasia,
um perene desejo no ventre
(de samba, de orgia).

O Carnaval regressou,
quartafeiroso,
já sóbrio
como um dia trabalhado.
E fez, fora de época,
múltiplos sons
jorrarem da epiderme.

Ele era apenas um carnaval.
Mas ela,
de repente,
desejou que o carnaval
se prolongasse,
serpentinamente.

8 de jun de 2010

Intempérie

Faça solo ou faça coro,
faça sol ou faça dó,
eu, soprano,
canto só.
Sou choro.

Faça chuva ou faça clave,
eu acho a chave
e abro o sol.

Na falta
de seta siga,
eu sigo Sade.

Se cega a faca,
se fraco o sangue,
eu sangro um soul
no seu mangue.

Caia o sol ou nasça a chuva,
faça falta ou seja breve,
salitre eu sempre levo
sob a manga.

Faça sol
ou faça sombra,
eu sofro solo,
eu faço samba.

25 de mai de 2010

Fim

Eu Medéia.
Eu Joana.
Eu todas as éias e anas
entre tantas
desenganas e desidéias.

Eu engulo seco
o abandono.
Planejo fria uma ferida.
Coagulo.

Eu calculo
teu seno, teu quadrante.
Injeto
tangencialmente
meu veneno.

Basta um dia
e eu Joana jorrando
Joana tangente
pungente
rangendo dentes
insiro
a cicuta.

Eu mato
Jazão,
a prole,
o não.

Eu firo
e prefiro
assim
o fim.

27 de abr de 2010

Operária

Em tua cútis,
o que aveluda?
O que muda tonalidades?
O pó não é de arroz,
é de ferro.
Restos de produção,
fina camada maquiada
de cansaço.

Em tua carne operária
despida de ferramentas
é fim de turno.

Em tua boca
sorvo o sono
e o café.

Mordo o músculo
laboral.
O lábio.
Tua tão prima matéria.
Teu insumo.

Engrenamos
entre fluidos lubrificantes.

E o que se produz
neste instante
é inalienável.

24 de abr de 2010

Des-culpa

Perdoa esta mentira
verso de cafeína
falacioso.

Perdoa
pois hoje é verão
e a chuva morna
desmancha máscaras
de machê e açúcar.

Perdoa
a falta de nexo
desta aurora.
Perdoa o prefixo
e o sufixo
crucificados
(eles não sabem o que fazem)

Perdoa
o éter e o heterônimo
fingidor.

Desculpa.

Mas bebe esta mentira
até a última gota.
Pois neste bar
não há dose de culpa.
Só whisky sem gelo.

31 de mar de 2010

Sensoriais

Há que calçar
luvas e meias de formigamento,
romper a trincheira cutânea.
Tatear.

Há que sentir
a pasta chocolatinosa no estômago,
as ondas elétricas
pelas fiações dos nervos
até os dedos.

Há que ver
através do parabrisa
as luzes úmidas da cidade
pinceladas por Monet.

Dançar
um tango sob esta chuva,
melodia escorrendo pelo dorso.

Há que sentir
o aroma herbáceo da manhã,
um filme com cheiro de alecrim,
uma garoa sobre as folhas de ficus.

21 de mar de 2010

Rascunho (ou Tentativa de suicídio)

Riscado a gilete
rascunhado
nos punhos

irreversível
rio
escorre...

Apenas ensaio
estancado
liquidado
liquefeito,

terra sulcada
semea-dor.

Profundo vinco
vinculado a ti.

sapiens sapiens

Querem-te máquina.

Tua esperança
dia a dia desbastada.
O tempo
oxidando articulações,
usinando sulcos em tua face.
E não é fácil
facear a dor.

Querem-te máquina.

Tuas artérias e veias,
vias hidráulicas valvuladas,
em sobrepressão.

Tua bomba-coração
irriga.
Mas há dias
em que explode.

Querem-te máquina.

Teus braços aços
torneando os dias em turnos.
Afiadas ferramentas fixas,
que fresam, forjam.
Mas também ferem.

O mundo pesa
sobre tua caixa torácica,
escudo de verso inoxidável.


Tua inteligência
não é artificial,
não é programável.

Querem-te máquina.

Se eles soubessem
teu limite,
teu torque máximo...

23 de jan de 2010

Planos

Calculo
as (des)coordenadas
absolutas e incrementais.

E mais.
Encontro teu ponto
no infinito.
Fito.

Abro tua parábola,
curva da boca.
Adentro teu centro
bélico.

Mas me perco...

Amar é não ter planos cartesianos.
Improvisamos.