31 de jul de 2016

Recém Nascido

Rompe a casca.
Rebento envolto
em vermelhos óleos.
Revolto.

Nasce maduro.
Como um canto
que tanto se estancou.
Ecoa futuros.

Tanto se quis
extirpá-lo, abortá-lo,
considerá-lo tumor.
Um vírus em metástase.
Um surto alucinógeno.

Ele era mais...

Filhos de tantos úteros
(rochedos)
ele é nascente:
água pura e violenta
desentranhada.

É aurora bela e radioativa
escorrendo
em acelerado
metabolismo.

Hasteará versos de arrebol
pelas ruas.
Bruto e fresco,
como um fruto cítrico.

19 de jul de 2015

Acidente de Trabalho

A máquina
tem fome de carne humana.
Graxa, sangue, suor
lubrificam suas presas canibais.

Na cadeia alimentar
do Capital,
todos os dias,
ela come quilos transpirados,
bebe horas, anos
de vida gotejada.

Sucuri rija,
seus dentes
às vezes impactam.
E ela digere
de um só golpe
um dedo, uma mão,
um braço, uma vida.
Carne uniformizada moída.

Não. Não é acidental.

31 de mai de 2014

Sujo

Meu verso
sonha ser lesma
quando crescer.
Deslizar no seio da pedra.

Mas nasce sujo
na graxa amniótica das máquinas.
Puxado a fórceps
pelo ritmo, rotina,
pela meta métrica.
Esforço repetitivo.

Aprisionado e uniformizado
ele sonha com a brisa
das partes íntimas da noite.
O som do grilo.

Acontece às vezes
de aparecer uma lesma
ousada
gosmando na graxa da máquina.
Aí ele se contenta
e se contamina.

O julgamento da borboleta

Para Moara, cujo nome ousa significar liberdade


Culpada
pelo verso livre
guardado em teu nome
tão infame.

Culpada
por preferir
o segredo aveludado
das tulipas.

24 de jul de 2013

Derrame

Diz o ditado que:
o ditador dita a dor
o governador governa a dor
o trabalhador trabalha a dor
o plantador planta a dor.

E o poeta, sem ofício,
Encantador.

(PAULENRIQUE, 1985)


O governador
governava a dor.
E, súbito, desgovernou-se.

A rua
engarrafou-se de gentes.
Enchentes.
Onde estás?

O poeta,
encantador,
por anos decantado,
preenche-se.
Preenche-me.

(Eu, uma apenas,
da tua prole de poesias)

De dentro de cada grão de mim
observas
as ruas
veias entupidas de junho.
O derrame.

Após 20 anos de morte.

Vivo, o poema
nosso filho
incestuoso
inequívoco
carrega uma bandeira.

22 de set de 2012

Ritual

São quase desnecessários
os rituais de marzipã.
As bocas cheias
de discursos e camafeus.
A dama de branco,
a dança,
os retratos de açúcar.
Quase desnecessário
o pacto trêmulo
de dedos entrelaçados.
O 'se' e o 'sim'.
Essencial (e apócrifo)
é o laço.

20 de jul de 2012

Raiz

Não tenhas preguiça de enraizar-te.
Cravar unhas, tronco, braços,
caule, cascas, pele,
seiva sumo, saliva, sementes.
Deixar-te ao sabor do solo
a pensar o fruto
traçando laços sedimentares
Deixar-te apenas
descansar os músculos carnosos
fibras clorofílicas
em meu ventre de humus
a umidecer-te.

5 de mai de 2012

Lombociatalgia

A dor que não se sabe
se sexo sutra,
se ciático o nervo,
se cianureto o sentimento.

A dor se sabe etílica.
E não sabe
se o osso
é sacro ou ilíaco,
se são vias sacras ou profanas
os quadris.

3 de mai de 2012

Transfusão

Apenas me avise
se desejar uma transfusão

de sangue
saliva
ou sinestesias.

Do orvalho
que minha corola
ocultou.

Tudo que secretei,
que puder ser injetado,
todo verso que coagule
e te cause
reação.


17 de abr de 2012

Cubo Mágico

No vértice da tarde
minha cor e a tua
tão primárias
se expandem
por todos os lados
poliédricos.

(Enquanto outros cubos
incolores, doloridos,
gelam o verso do corpo,
o álcool do copo)

Nossas cores pontiagudas
circundam um eixo
(de vida)

E se teu movimento
preciso, calculado,
encontra, ao acaso,
no mesmo de seis lados
minha cor sem rumo,

é apenas para saber
nosso perfeito encaixe.

9 de jun de 2011

Felino

Ficaram expostas as substâncias.
Lambemos tudo
que permanece sobre os pelos
quando o poema ultrapassa poros.

Lambemos
lascas de chuva borrando a janela
e o matrimônico anel de saturno.
Em ambas as línguas
nossos noturnos gomos.

Sob a asa do lençol,
a textura amniótica
do teu colo felino,
masculino útero.

Quando tua língua
secou lágrima acre
de minha pupila vertical,
devolvi
a concavidade serena
de guardar.

Em tua papila
me guardas, doce.
Em minha língua permaneces,
verso.

22 de mar de 2011

Tintura

Não preciso me pintar
para que borboletas
me entendam flor.

Unhas nuas.
O lábio colorido apenas
pelo beijo.
Desprovida de laço de fita.
De rímel, rendas, riscos.

Minhas cores
próprias, únicas,
não escorrem sob a chuva.
Levo-as,
rubras,
no peito.

11 de mar de 2011

Turvo

Em teus negros olhos,
flores de petróleo,
aprendi a ver
coisas que não existem.

Teus olhos
de águas turvas
onde jazem tão misturados
o lodo, a iris, a pupila,
a verdade, a mentira.

No negrume líquido de teus olhos
ergueram-se castelos
de obscuros calabouços.
Devaneios.

Até que um dia
teus olhos de petróleo
derreteram.

23 de fev de 2011

Acalanto

Desperto teu sono pueril.
Meu vinil arranhado
quer te tocar.

Teus dedos
brincam canções
nos meus músculos.
Em teu corpo
faço lira,
me deleito lúdica,
pulo corda
do teu violão.

De teus lábios
brotam pássaros
feitos de devaneio
trinando acalantos.

E em teu colo,
fino lençol
de pele de criança,
adormeço.

17 de fev de 2011

Tangente

Tu tangencias,
tão tântrico.
Lambendo a beira orgásmica da libido.
Língua solar na borda do seio do horizonte.

No ponto único crítico e clitórico
em que me interceptas:
toque tão retilíneo
da ponta dos dedos
sobre minhas curvas;
neste ponto me encontras
tão completa.

É exata e matematicamente
esta tua tanta tentativa de apenas tangenciar
que, inevitável, me perfura.

1 de fev de 2011

Das coisas tuas

Da mágica fecundada
encubada
nas cores do cubo;

da nudez da fruta
penca de peças brancas
despencando do tabuleiro;

do aço cirúrgico
que atravessa
a língua
o peito
e surge e arde urgente
dentro do beijo;

da veia que se salienta tão azul
costurando tatuagens:
marcas
que te maculam;

das pencas de coisas tuas
extraio
destilo
o medo de pisar a uva
e ela vinhar
vingar copo e corpo adentro.

18 de jan de 2011

Nuas uvas

As uvas pedem
que tua paciência
as descasque.

Uvas
que se sabem lentas
quentes pencas
esperadas.

Elas pedem
que pouses
o breu do teu
contemplar
sobre claras carnes nuas.

E só então
após
e apenas
que mordas
que chupes
uvas
com a avidez de vulvas
e a delicadez de avencas.

18 de dez de 2010

Guardados

Fazem bem
as nostalgias e os analógicos
presos na relojoaria.
Ouvir vinis
e bem-te-vis na janela
e pequenas velharias.

Às vezes
prefiro o verso
datilografado.
Guardo amores mofados,
uns trecos,
grampos, pregos,
potes usados.

Prezo muito
este pó
sobre os retratos.
O paletó demodê
e o buraco no sapato.

Gosto de deixar
as melhores palavras
alí na caixa de rascunhos
para serem comidas por traças,
envelhecerem safras.

Gosto de passear
no cheiro grisalho dos sebos.
E do amor
que não é para agora.
Guardá-lo
num velho livro
ou naquelas caixas bonitas
que não se joga fora.

Deixa.
Que a pressa não faz bem
nem ao vinho nem ao poema.

Deixa.
Que o coração é grande
e está cheio de cacarecos.

17 de dez de 2010

J'ai lu des fleurs

Do velho hábito
de guardar flores secas
em livros preferidos,
reencontrar os cheiros
em releituras,

te guardo,
te releio,
Lee Flôres.

15 de dez de 2010

De coeur

O verso que a musa
memoriza
já estava lá.
Porque ela nasceu
sabendo-se.

Ela sabe tatear
a tatuagem profunda
que se fizeram.
Invisível
dentro da carne.

Ela sabe de cor
de corpo
de coeur
o beijo.
Decorou
a cor mais precisa
de cada acorde.

De olhos fechados
a musa
sabe de cor(ação)
a canção.
Reconhece
o crepúsculo corpo
que lhe dá a mão.

(Para Nathália, musa tomada emprestada, sem licença)

14 de dez de 2010

Caminhar

O que me alimenta
é caminhar.

Vou me nutrindo
do barro
no qual se fincam meus pés
a cada passo.

Enraízo-me.
Do húmus,
restos, folhas, vermes,
faço seiva e verso.

Saciados
pés de mandrágora
decidem:
E não sem dor
arranco-me
sempre.

1 de dez de 2010

Medusa

Por um segundo
me amas.

E em tua camisa
minhas madeixas
serpentes
mambas negras
vivas
se enroscam.

Por um segundo
encaras meus olhos.
O verso
veneno via iris
tão narciso quanto meduso.

Miras o verso
por um instante
suficiente.

E em teu peito
eu
petri
Fico.

23 de nov de 2010

Eu cedo

O que dar ao poema
que acorda?

Eu
de leite.
Um resquício
de madrugada sonhada
insiste.
Derrete no pão.

Aroma fresco
nos poros do filtro
coando
destilando flores.

Colho o trigo,
reconheço
a estação, a safra
salivando o açúcar.

A fome matinal
do poema
cede
sabe.

É cedo ainda.

16 de nov de 2010

Indício

Sei da terra erodida
dos grãos que ficam
de sulcos rugas

da então dor
do lábio
medo humano
de se dar e se morder.

Mas se eu orvalhar
na terra, na verde folha,
uma saliva suficiente
ou jorrante,
não tenhas dúvida:
amanheci.

13 de nov de 2010

Flores

Entre nós
uma geografia inteira.
Caatingas, cerrados, concretos,
estados, trópicos, fronteiras.

Eu sei.
Não há espaço
para o toque utópico,
o metafísico.
Não há tempo
para o verso
que não caiba
no estilingue.

Mas te prometo
um amanhecer
em que apenas os pássaros
não façam greve,
em que as flores
ousem cobrir
violentamente
o asfalto.

Então seremos,
tu e eu,
flores.

(Para Lee Flôres, pois eu não me canso da expressão pré-fabricada existente em seu nome)

4 de nov de 2010

Provocação

Hoje
eu quero adentrar
na vagina úmida
da palavra sexo.

Quero que bocas,
seios, pênis
signifiquem
exatamente o que são.
Lambê-las todas.

Hoje
não meto metáforas,
metonímias, eufemismos.
Ainda que haja
de leve
uma metalíngua,
esta poesia
apenas penetra
o literal.

Hoje
vou chupar a palavra pênis
em cada letra, pingo e gota
até ela ficar bem feliz.

Só hoje,
nada de sutileza.
A poesia
vai dizer safadezas
em seu ouvido.
Escrever será um prazer.

E no clímax,
no ápice da palavra clítoris,
a poesia vai gozar.

E você vai gostar.

28 de out de 2010

Pro fundo

Isto
de não ficares
nas superfícies.

O abissal
das contradições.
Tanta delicadeza e voracidade.

De ter nos olhos tristes
uma maciez, um abracismo.
Nas mãos uns colibris.

E nas mesmas mãos
trovões desejosos.
A fome de encaixar-se
tão dentro em carne.
Envenenamento.
De apertar
rente
demarcar
o branco reneg(r)ado da pele.

O teu não saber se ater
à superfície.
Ultrapassar
a margem lábio.
Mergulhar.
Pedra rompendo
pele calma
das águas minhas.

Se te levo
iaramente
fundo
em meus lagos,
cabelos, unhas, peito,
é por seres
já tão profundo.

27 de out de 2010

De(s)dicatória

A poesia não diz.
Mas contempla teu nome
pré-fabricado
e não evita
versar a primavera.

Ela lembra
o beijo ausente,
pressente o corte.
Tergi-versa a dedicatória.

A poesia arre-pende?
Ela tende a ser tua
tende
a tocar na pele
um acorde meio Hendrix.



(Esta é para Lee Flôres, poeta apaixonante do www.expressaoprefabricada.blogspot.com , que contém flores em seu verso, em seu nome, em seu ser. E, mimado, gosta de dedicatórias.)

22 de out de 2010

Das posses

O poema
sem dedicatória
verso ouriço em tuas mãos.

É tão teu que o provocaste.
É tão meu,
que ofertado
permanece prole minha.

Mas exposto
ele caminha
solitário prostituto,
ama, serve, cabe bem
a outrem, a qualquer.
Veste as cores
de quem lê.

O poema que te fiz
sem selo, destinatário, remetente,
alcança mais.

Sendo teu o meu poema
não dedico.
Abdico.

Boneca Rubra 2


Fora.
O poema vermelho insuficiente
desalvorece em ti.

Mas dentro...
no ventre ventrículo
coração
de boneca russa
bem dentro dela
e dentro dela
e ainda mais dentro
e repetidamente dentro
epicentro
sempre

és o poema mais bonito.

19 de out de 2010

Verso Cego

Penumbrou-se
a poesia.
A retina ardia
uma escuridão.
Ainda assim,
li flores em teus olhos.
A densidade das hipérboles
dilatando pupilas.

Éramos
platônicos personagens
na caverna.
Estalactites.
O medo da fresta
aguardando o facho
da palavra luz.

Éramos 33
fomes e sedes chilenas
presas na mina germinal
centro ígneo útero
da terra, que sempre erra
o resgate.

Nem o pernilongo.
Nem a estrela.
Nem o beijo.
Nada ousou rasgar
a cortina da noite.

O verso
apenas adormeceu
no invisível som
do respirar.

15 de out de 2010

Maldizendo


Não se encruzilhe.
Poesia é mandinga braba.

Se a caldeira
desavisada
ferve.
Não vá misturando
pitada de verbo
línguas de metáforas
gosto sinestésico
de luar...

Não arrisque
alquimia de significados,
ricos sabores neológicos,
pois o molho
unguento
cozinha...
será inocente o que virá?

Não se iluda
com a magia
das assonâncias,
a ousadia
nos ouvidos
das moças.

Poesia não é coisa
do céu.
É obra do cão.
Macumba,
urucubaca...
não larga mais
a sangria intermitente.
A prosa tinhosa.

Pensa que impunemente
pode ir criando cântico
que alcança o âmago
e faz do olho uma nascente?

Prepare bem o ebó
de peito aberto
e corpo fechado.
Poesia é negócio feito
com sangue e alma.
E o Coisa-ruim
cobra em espécie,
líquido e corrente.

Não invoque o mundo
esta suposta
encruzilhada
de olhos malaguetos.
Esta sensação de incômodo.

Depois não haverá remédio,
exorcismo, quebranto
que a arranque
o nódulo do peito –
essa paixão no estômago.


(Por Yara Fernandes e Lee Flôres)

4 de out de 2010

Perto

Dançar:
um estar
tão perto.

Doce sangria
esta salsa, este cio.
Tua força
verso vivo
a enlaçar minha cintura.

Tão perto.
Que a acidez transpirada
me transparece.
Que nossas epidermes
são síntese úmida,
simbiose.

Tão perto.
Que nossas células
secretam
seiva e receios.
Como se dançar doesse.
Como se a dor de dentro contorcesse.

Tão perto
que tantas as partes
dos nossos corpos
se beijam
inconsentida
e inconsequentemente.

Tão perto
que nunca perto
o suficiente.

30 de set de 2010

Kafkiana

Crisalidamente protegida,
durmo até que as cores
me explodam
e os versos voem.

Eu canto até me abrir,
desfazer o exoesqueleto.
Máscaras descartadas.
Romper a casca de quitina.

Descasco-me.
Abandonando
um eu lírico, um heterônimo.
Metáforas e metonímias
em mutações genéticas.

A poesia se move
tectônica como os continentes,
como o samba dos teus pés.

Em seu suco amniótico,
eu morro e nasço
em cada verso, cada paixão.
Sempre feto.

19 de set de 2010

Resíduo

O mesmo dia.
Terra tonta
rotaciona
sem translação.

O mesmo café
engolido de pé na estação.
Mesmas faces sonolentas no trem.
Lugares demarcados.
O feijão
repetidamente ruim.

Cansaço acumulado,
rugas, cicatrizes
lentamente
usinadas no corpo.

Apenas no corpo
o tempo passa,
se acumula.
Lá fora
o dia rotaciona,
reamanhece
sempre tão igual.

O corpo
apenas aguarda parar.
Aguarda o trem.

Mas se acumula no corpo
mais que rugas
mais que pó.

No corpo
nasce a poesia
flor inesperada e súbita.
Nasce em silêncio,
devagar.
Nem o sol a percebe.
Quando se vê,
já é rubra,
procriou.

Fará mudar
o corpo
o tempo
os dias.

Segredo

O clichê da lua cheia
absorveu a umidade do ar
e de pranto inflou-se.
Garoou.
Desorbitado
olho inchado de chorar.

Um amarelo envelhecido
da cachaça entornada
espalhou-se em sua face.
Imensa e redonda
a dor da lua.

Ninguém sabe.
Mas ela é apenas
reflexo satelital,
dor retroprojetada
de dentro do centro
gravitacional
do meu uivo.

Re-vida

A fera em ti
me rasga.

E eu, ferida,
ainda duvido.

Em mim, a dor
de teus dentes,
de teus olhos camaleônicos.

A mordida animalesca.
A fresca carne
que se rompe sem esforço,
desabotoada.

Púrpuros botões
brotam da fenda.
Porta violentamente aberta
entre os seios.

Minha dor
desgarrada sob tuas garras.
Desfiada entre os dentes.
Desafiada.

Minha dor
presa nas grades da cadeia
alimentar.

Minha dor
seiva quente
escorre em teus caninos
esvaindo vida.

E eu, ferida,
revido!

3 de set de 2010

Laços

Deitada ao teu lado
desejo laços.

Ata-me.
Punhos, olhos, pernas, sexos, fluidos.
Atemos
orgasmos em única gota.
Tatuemo-nos
com dentes, unhas.

Reatemos
nossas estradas e paradas.
Jasmins nos cabelos,
poesias em parceria.
Atemo-nos
dançando sons vulcânicos.

Deitados
os corpos atados:
uniforme emaranhado de membros.
Polvo humano deleitado.
As gotas transpiradas,
os fluidos nectares,
nossos elos melífluos
escorrendo pelos vales
entre meus e teus músculos.
Rios antes tão febris magmáticos,
agora repousam:
calmas águas termais.
Enlaçados afluentes.

Deitada ao teu lado
concebo e alucino
idéia mais profunda de laço:
espiralando-nos
nossos DNAs entrelaçados.

25 de ago de 2010

Sobre Flôres

A pré-cisão da fabricação do verso.
Funciona.

Um sempre dizer amor
até quando o amor não ama mais.
Um acender e apagar de estrelas.
Matutinas? Vesperais?
Apenas versos breves de açúcar,
brevidades no café...

No cálice:
Vodca engatilhada? Lágrima decimal?
Expressão de sim e não.
Platônica paixão:
amor-ideia morando na palavra,
nos repentinos repentes.

Em ti
li flores
(ora rosas de mercúrio,
ora ensolarados jasmins).

Por vezes,
mesmo em flor,
li o sangue talhar no semáforo...
E tuas mãos cintilando,
aparando as cores do poema que escorre.

Se te levo no peito
(Flôres na lapela),
a ti separo uma rosa
(esta)
que declare guerras e amores.

19 de ago de 2010

Silêncio IV

As grades dos dentes
retendo a sílaba
o sorriso
o beijo
o penúltimo poema.
Rangentes caninos
regendo as notas
sinfônicas do silêncio.

Silêncio cimentando sequelas.
Entoa sarcástico no estômago
um banzo silencioso.
Dilúvio no copo. No corpo.

Despido de sons
o corpo ainda dança
solilóquio
desnutrido
ossos à vista.

(Quem dera fosse o silêncio
apenas a aliteração deste verso,
triste insistência consonantal)

Ainda em deleite,
o corpo dança
a sátira do ritmo.
Síntese etílica na saliva.

Esquisofrênico
o corpo dança em silêncio.
Sem palavras
sem prosa
sem poesia...

13 de ago de 2010

Pequena

É tanta a poesia
que fecundas
em meu ventre,
que, quando nasce,
ela me arrebenta.
E não há leite que baste
para alimentá-la.

É tanta a poesia
plantada por ti
em meu útero,
e eu sou tão pequena,
que me engrandeço
para que ela caiba.

Marcília

Que se faça silêncio na sala
para que Marcília
pinte os cílios.
Minuciosa. Ensimesmada.

Se Marcília,
serena e sádica,
pinta os cílios desapressada,
se as pálpebras
assombradas e sombreadas
piscam
e, desacelerados,
os cílios curvilíneos
em revoada
abrem ventos e pausas no tempo...
apenas faça silêncio.

Nenhum som se emita
se os lábios entreabertos
se vestem de tons cerejais.

Se o espelho
é insuficiente
para a síntese pessegal
da face de Marcília,
só disfarce e observe a simetria.

Mas faça silêncio
para que os cílios de Marcília
não alcem vôo.

11 de ago de 2010

No Enquanto

Beatriz presa
na geografia quântica
do Enquanto.
O corpo paira
no espaço-tempo.
Beatriz presa no purgatório.

Beatriz no mar,
cúmplice do sal.
Permitiu que o vento se esvaísse
na fresta entre dunas.

Mas não.
Beatriz não fica em banho maria.
Ela ferve ou congela
ao menor toque.
Beatriz não ameniza.
Alquímica e empírica,
ela cura a seu modo as feridas.
É dessas que passeia na chuva
e só bebe o que for intenso.
Beatriz condensa.
Eutanásica,
recusa o coma, a sobrevida.
Rejeita médias aritméticas,
meios termos.

Beatriz
presa no purgatório,
a libido no limbo.
Diabólica, fabulística,
aprende a moral da história.
Recua.
O paraíso não existe.

Beatriz no triz da carne
recusa a prisão.
De dentro do Enquanto, fez-se o pranto
e ela não mais quis.
Mergulhou
tão abissal
no verso.
Nunca mais voltou.
Desenquantou-se.

9 de ago de 2010

Duvidando

Dúvidas
nos poros dos morangos
encobertas
pela condensação do leite.
Dúvidas em névoa.

Mordo cada dúvida
nos gomos da tua carne.
Dúvidas criando músculos.
Meticulosas, trabalhadas.

Dúvidas viúvas,
perdidas de causas,
enlutadas, resignadas...

Duvido
de resposta categórica
indivisível
indubitável
que as vença.
Ao invés,
divido contigo
os dividendos da dúvida.
As dívidas, as dádivas.

No fundo
a dúvida
é névoa
divagação...

5 de ago de 2010

Gole

Será veneno
ou será morfina?
Como brindar
se as taças estão
possivelmente preenchidas
com bebidas peçonhentas?

Como saber
se o conteúdo da seringa
mata ou chapa?
Se cura o câncer, se ameniza a dor?

Se o frasco não tem rótulo,
se não se sabe a safra,
a procedência,
se absinto, se cicuta...

Como saber
se a água é benta ou virulenta?
Se for seiva, sêmem ou sangue,
eu engulo? Jorro? Coagulo?
A fenda que escorre
eu estanco ou vampirescamente sugo?

O que fazer da lágrima?
Destilo margueritas?
Extraio o sal,
salgo a carne esquartejada?
Sirvo o pranto
em taças,
em doses dietéticas?
De ciúme? De cianureto?

Resta
arriscar o gole.

Verborragia

Ê sujeito!
Deixe dessas
adversativas!
Que nossas conjunções
são aditivas e carnais.

Não seja intransigente,
intransitivo, transitivo,
transitório...
Pois amar
é verbo de ligação.

Gás lacrimogêneo

Tudo o que era concreto
evaporou.

Restou,
lacrimogêneo e tóxico,
o gás da saudade:
partículas de memórias
envenenando pulmões,
ardendo nos olhos.

De lacrimogêneo,
o apartamento
virou câmara de gás.
Cianídrico.

O aroma
transbordando das panelas.
Os graus centígrados
dos lençóis.
O pH dos corpos ensaboados.
Na minha pele,
os átomos desgarrados do teu corpo
pelo atrito com o meu.
Todos os nossos pontos
de ebulição...

Tudo evaporou.
Mas não, nada se perde.
Tudo é transformação,
reação química, ou dialética.
Refazendo ligações covalentes.
Re-solidificando.

1 de ago de 2010

Palavras ao vento II

Abrapalavracadabra:
qual palavra chave
abre a trava
do teu coração?

Quais palavras serão aves
em sobrevoo
sobre teu sopro?

A palavra treme
cravada
sob teus dentes.
Tua presa e prisioneira.

Abrapalavracadabra.
Abra a palavra,
perfura a frase
a estrutura
transforma a palavra dor
em cura.

A palavra pede calma
colhe pedaços
forma sílabas súbitas
de um poema.

Afiados fonemas
palavrando
esparramando
versos no vento.

31 de jul de 2010

Abrir os olhos

Há um amor que não é cego.

Ele elimina o glaucoma
descortina retinas
revela o velado
o que foi vilipendiado
dispersa a neblina
para tecer teia entre nossos gestos.
Mata ou morre
apenas para ver a aurora.

Amor que é elo,
des
alien
Ação.

Palavras ao vento

O diabo é o vento.

Brinca de invisível...
Tentador,
esparrama aromas.
Ou manda a brisa
virar tempestade.

O diabo é vento,
movimento inventado.
Levitando saias,
eriçando pelos.
E abandonando.

O diabo é volátil
é o que se esvai
evapora
desmancha
dissolve
desprende-se
atmosférico.

É volúvel
vírus mutante
errante
efêmero
confusão difusa.
É o diabo este vento!

Pois que ele me tome
em seus infernais furacões.
Que sou pássaro
e sei bailar no infinito.

19 de jul de 2010

# Versificado


Folha de S. Paulo, 17/07/2010 - Negócios - Matérias Primas
www.versificados.blogspot.com

15 de jul de 2010

Concreto

Gosto da poesia
que nasce na casca do pão,
que rompe esparramando
migalhas de aroma na mesa
antes mesmo de nascer o sol.

Gosto da poesia guardanápica,
de gosto alcoólico,
soluçada no bar.
O verso exalado das camas,
nas cores vivas das vulvas.
Poesia pornodatilográfica:
filha das Olivettis.

Gosto da poesia que salta
dos calos dos dedos,
rascunhada no papel sujo
de suor e graxa.
Poesia que dói
as sedes humanas.

A poesia que nasce
suja de líquido amniótico,
que grita o parto,
que escandaliza.

Isso sim, é poesia concreta.

13 de jul de 2010

Jazz

Teu toque
é tão grave...

É nota improvisada
que me dedilha
trepidando cordas
bambeando pernas.

Um swing segue pelo sangue.
E eu solo.

Se teu jazz me toca,
eu deixo de ser blue.

12 de jul de 2010

Eitcha!

Abestado, o coração pocou,
levou uma pisa.
Quem seguiria
farrapou...

Resta um mal,
uma presepada,
uma biloura.

Restos de léxico alagoano
alagando.

Úmida
tua língua
em meu ouvido.

5 de jul de 2010

Manzana

Ana manzana
tentadora fruta temporã.

Quisera morder
tuas maçãs despidas
aquecidas em compotas
despudoradas, excitadas
curvas morenas carameladas.

Tuas coloridas carnes
cheias de sumo
cheias de samba
nas sandálias.

Quisera morder-te
fruta atípica
cítrica cabrocha.

Venha temprano,
Ana mañana.
Para eu amar-te
da raiz ao sumo.

O Carnaval

Ele não era poesia.
Era apenas um carnaval.

Uma festa sexual
colorindo sua carne,
um pecado úmido de vodca,
um beijo de morango e gengibre.
A máscara de um sorriso
pintada na boca.

Deixou um rastro,
um resto de fantasia,
um perene desejo no ventre
(de samba, de orgia).

O Carnaval regressou,
quartafeiroso,
já sóbrio
como um dia trabalhado.
E fez, fora de época,
múltiplos sons
jorrarem da epiderme.

Ele era apenas um carnaval.
Mas ela,
de repente,
desejou que o carnaval
se prolongasse,
serpentinamente.

8 de jun de 2010

Intempérie

Faça solo ou faça coro,
faça sol ou faça dó,
eu, soprano,
canto só.
Sou choro.

Faça chuva ou faça clave,
eu acho a chave
e abro o sol.

Na falta
de seta siga,
eu sigo Sade.

Se cega a faca,
se fraco o sangue,
eu sangro um soul
no seu mangue.

Caia o sol ou nasça a chuva,
faça falta ou seja breve,
salitre eu sempre levo
sob a manga.

Faça sol
ou faça sombra,
eu sofro solo,
eu faço samba.

25 de mai de 2010

Fim

Eu Medéia.
Eu Joana.
Eu todas as éias e anas
entre tantas
desenganas e desidéias.

Eu engulo seco
o abandono.
Planejo fria uma ferida.
Coagulo.

Eu calculo
teu seno, teu quadrante.
Injeto
tangencialmente
meu veneno.

Basta um dia
e eu Joana jorrando
Joana tangente
pungente
rangendo dentes
insiro
a cicuta.

Eu mato
Jazão,
a prole,
o não.

Eu firo
e prefiro
assim
o fim.

27 de abr de 2010

Operária

Em tua cútis,
o que aveluda?
O que muda tonalidades?
O pó não é de arroz,
é de ferro.
Restos de produção,
fina camada maquiada
de cansaço.

Em tua carne operária
despida de ferramentas
é fim de turno.

Em tua boca
sorvo o sono
e o café.

Mordo o músculo
laboral.
O lábio.
Tua tão prima matéria.
Teu insumo.

Engrenamos
entre fluidos lubrificantes.

E o que se produz
neste instante
é inalienável.

24 de abr de 2010

Des-culpa

Perdoa esta mentira
verso de cafeína
falacioso.

Perdoa
pois hoje é verão
e a chuva morna
desmancha máscaras
de machê e açúcar.

Perdoa
a falta de nexo
desta aurora.
Perdoa o prefixo
e o sufixo
crucificados
(eles não sabem o que fazem)

Perdoa
o éter e o heterônimo
fingidor.

Desculpa.

Mas bebe esta mentira
até a última gota.
Pois neste bar
não há dose de culpa.
Só whisky sem gelo.

31 de mar de 2010

Sensoriais

Há que calçar
luvas e meias de formigamento,
romper a trincheira cutânea.
Tatear.

Há que sentir
a pasta chocolatinosa no estômago,
as ondas elétricas
pelas fiações dos nervos
até os dedos.

Há que ver
através do parabrisa
as luzes úmidas da cidade
pinceladas por Monet.

Dançar
um tango sob esta chuva,
melodia escorrendo pelo dorso.

Há que sentir
o aroma herbáceo da manhã,
um filme com cheiro de alecrim,
uma garoa sobre as folhas de ficus.

21 de mar de 2010

Rascunho (ou Tentativa de suicídio)

Riscado a gilete
rascunhado
nos punhos

irreversível
rio
escorre...

Apenas ensaio
estancado
liquidado
liquefeito,

terra sulcada
semea-dor.

Profundo vinco
vinculado a ti.

sapiens sapiens

Querem-te máquina.

Tua esperança
dia a dia desbastada.
O tempo
oxidando articulações,
usinando sulcos em tua face.
E não é fácil
facear a dor.

Querem-te máquina.

Tuas artérias e veias,
vias hidráulicas valvuladas,
em sobrepressão.

Tua bomba-coração
irriga.
Mas há dias
em que explode.

Querem-te máquina.

Teus braços aços
torneando os dias em turnos.
Afiadas ferramentas fixas,
que fresam, forjam.
Mas também ferem.

O mundo pesa
sobre tua caixa torácica,
escudo de verso inoxidável.


Tua inteligência
não é artificial,
não é programável.

Querem-te máquina.

Se eles soubessem
teu limite,
teu torque máximo...

23 de jan de 2010

Planos

Calculo
as (des)coordenadas
absolutas e incrementais.

E mais.
Encontro teu ponto
no infinito.
Fito.

Abro tua parábola,
curva da boca.
Adentro teu centro
bélico.

Mas me perco...

Amar é não ter planos cartesianos.
Improvisamos.

29 de dez de 2009

Camila

(Poema-presente de amigo secreto poético, escrito por mim para Camila Lemos - http://palavrasnofarol.blogspot.com)

O ar denso
de tua ardência
veraniando versos.

Um não saber o sabor
de tua língua,
se siriguela, se graviola.
Tua saliva que acerta
o pingo, a seta,
o ponto certo da calda
e da rima.

Quisera eu ser em dezembro
o versinho mais besta
de tuas alagadas mãos,
tão litorâneas!
Palavras em grãos
no teu corpo de areia morna.

Tu,
de sempre-vivas nos cabelos,
conténs o sal:
nos olhos chorando riachos.
Em versos mares,
que douram sob o sol,
prateiam sob o luar.

Ah, tuas horizon-tonalidades!

26 de dez de 2009

Um ano

Não foi o tempo que passou,
foi uma música apenas.

O tempo não é linear___idade
não é sólido, líquido, gasoso.

O tempo é o gozo de uma dança
Tem ponteiros compassados
por um tango
por um tanto
de areia.

Pinga
365 gotas na ampulheta
365 passos no salão do sol.

Seu passo não é linha reta.
O tempo desliza a sapatilha
em curvas, voleios...

Não foi o tempo que passou.
É só uma música que finda...

Para que me dês o prazer
de uma nova dança
ao redor do sol.

14 de dez de 2009

sider urge

Dispostos em pilhas
os novelos metálicos
aguardam.

Serão tricotados
os fios de aço.
Tecidos em telas,
treliças tantas.

Serão costurados
nas entranhas de muros,
serão estruturas
suturando concretos.

A trefilaria
fia o fio.
Desafia
o sol de aço.

A solda,
ponto a ponto,
ata a trama
de arame estriado.

O suor ácido
é destilado
na aciaria
dia a dia
em turnos
ininterruptos.

Acaba o café.
O aço-carbono
vira sono.

Regurgito
o gole siderúrgico.
Cogito dias
menos sujos.

Ainda em novelos
o aço aguarda.
Em silêncio.
Linha parada.

É fio imaginário
trefilando
as estruturas dos sonhos.

14 de out de 2009

A poesia
acumula na mobília.
Nos cílios em vigília.
Poesia em pó
salpicada sobre os livros,
tapando narinas.

Poesia cocaína
que eu inalo
branca e pura.
Inalo o vício
peneirado, açucarado.
O refino.
O resquício
que a cama exala
pós polinizada
pelo pó
da poesia.

O pó sépia,
poeira pífia,
insípida.
A poesia rinite
que eu tusso
retinta
no lenço.

Faxina. Narina. Cocaína. Fina...

Aspiro carreiras
de rima pobre
em pó.
Industrializada.
Apenas poesia sinterizada.
De poeta
aspirante.

15 de set de 2009

Tango

Um tango sempre morre.
Um tanto, no entanto,
escorre.
Coagula sobre o palco.
Plaquetário. Ordinário.

O tango com a rosa
entre dentes, entre tantas,
morre.
Entretanto,
baila tonto nas entranhas,
descostura entrelinhas tênues
e arreganha a saia.
Salta a perna
que desliza
em ângulo agudo.

Contudo,
ainda é tango
e sempre morre.
Uma entranha que escorre.
Hemorrágica
pelas pernas.
O rímel pelos olhos.
A grafia é tanto sangue
que transborda.

Tudo escorre.
Só se estanca
quando grudam
nossos troncos, nossas ancas.

Cada passo que sutura
uma n’outra
as entranhas
é desestranhamento,
acoplamento,
cópula.

No entanto, é tango.
Sempre morre.
Morre em sangue.
Morre em sêmen.

Escorre.

11 de set de 2009

Bacuri

Inseminada
a palavra no ventre.
Fértil frase.

Poema bom
fecunda em nove meses.

Será feminino ou masculino
este tão substantivo ser??
Sobrecomum.

Um.
Filho dos versos
meus e teus.
Tão novo.

É um neologismo.

5 de ago de 2009

Picante

Beijo
tua pétala:
tulipa púrpura.

Toco
tua penugem:
tapete de pelos púbicos.

Publico
tuas impudicas taras
inter-caladas.

Perfuro
tuas pupilas.

Páprica:
meu poema
em tua papila.

14 de jul de 2009

Soma

Somamo-nos.
Sintônicos e sintomáticos.

Conectamo-nos hipotenúsicos.
Nós,
catetos
inoportunos.

Somamos:
Ângulos no âmago,
cortes no pulso,
ruas desbifurcadas,
mãos dadas.

Da soma
restamos,
multiplicados.

24 de jun de 2009

Grão

o grão na ampulheta
que se organiza
e desliza
para as mãos que tateiam

infinito de
sensações sensoriais
sensações cereais

um saco de nãos
para as mãos

o grão que fecunda
que é feto
submersa semente

sêmen_ti

26 de mai de 2009

Alagoas

Dizias
de um viver afrodisíaco
de permanente embriaguez.
Infindas noites
quentes mantas.

Dizias paradisíacas
as águas verdes
e sereias doces
de madeixas em algas
e alagadas vulvas.

Dizias de solos
chorando cores
sedimentares
sobre os mares.

(Seriam falácias
as tuas falésias,
teus retalhos de terras?)

E teus olhos,
mais que úmidos,
mais ainda
diziam.

E de sereias verdes,
de olhos mares,
de úmidos solos,
de ti
alaguei-me.

23 de abr de 2009

surreal

é de linho o lençol
sobre o qual
o sonho sangra
uma navalha no olho
no ventre, na velha ideia

é branco o lençol
sobre o qual
Buñuel sonha
e coagula
sobre o qual
eu menstruo
a poesia morta

e abro a porta
para idílicos lucíferes
e gastrites taciturnas

é branco o lençol
que se faz mortalha
ou frágil camisa de força
de linho virgem
sobre o qual se desenham
gritos e magrittes

asas de tecido
presas no varal
que pedem tintas inconscientes,
voos

e eu já não sei
se comigo na cama
é Freddy ou Lynch
que me pinta
nua

ou se é tua língua
ou se é um camaleão entre tintas
ou se é...

8 de abr de 2009

(Re)atalhos

Andante minha, manda
por correio
um átomo de riso nômade.

Do lugar onde és vento
roçando montanhas.
Onde os fios fusos e trópicos
dos teus cabelos
são confusos.
Onde, sob o sol posto,
tu metamorfoste bicho.

E lembra que sempre há
uma curva oca
um (a)talhado
buraco de minhoca.

Lá te encontro.

5 de abr de 2009

As mãos

Estas mãos tantas
de metas metacárpicas
sobre o corpo meu.

De precisos dedos bisturis,
tu ris.

E cravas
as depravadas garras
na crua carne.

Minuciosas falanges
dedilham músculos
nas mais agudas notas.

Tuas mãos me tocam.
Eu canto.

4 de mar de 2009

Poemáquina

asdfg hjklç asdfg hjklç

tec tec tec

nos dedos gregos dactilos
meus estilos
tipos grafam
tipos gritam

violenta tecla bate
tec tec
te cortando
alavanca a saltitante letra
carimbando folha branca
tec tinta tec tinta
e troca a fita
e apita
o fim de linha

se saltitantes as letras
pousam uma a uma
lino típicas
utópicas
dançarinas

se sangram grafias
fiam linhas
esses tipos
atípicos

se sustenido
o teclado
(maiu)oscula os tipos altos

eu tipifico um verso torto
atemporal
datilográfico
pterodáctilo
(vindo voando
de tempos idos)

os tipos mudam...

e eu sempre
esta máquina
de escreverso

26 de fev de 2009

Quarta-feira

Findo o carnaval.
Descansa
teu dorso deitado,
teus nus edifícios:
vértebras irregulares no horizonte.

Tento, entre tantos ruídos,
auscultar o silêncio
do teu peito de concreto.

Em teu colo
angulosamente esculpido,
tua cútis cactácea,
tão cuspida, tão estática,
busco curvilínea sensualidade.

E ainda que cinza
esta quarta
(como tantas)
ainda que tão concreta
tua pétrea carne,
sinto teu movimento
de respirar.

15 de fev de 2009

Raio

Pisca teu olho elétrico.
Risco de giz
faiscando o firmamento.
Raio que chama Xangô.

É fluxo de elétrons
destravando válvulas
águas
óleos
elos.

A urbe vaza
pelos poros viadutos,
avenidas e olhos alagados.

Piscas.
E teu olho relâmpago
me chove
paulistanamente.