31 de jul de 2010

Abrir os olhos

Há um amor que não é cego.

Ele elimina o glaucoma
descortina retinas
revela o velado
o que foi vilipendiado
dispersa a neblina
para tecer teia entre nossos gestos.
Mata ou morre
apenas para ver a aurora.

Amor que é elo,
des
alien
Ação.

Palavras ao vento

O diabo é o vento.

Brinca de invisível...
Tentador,
esparrama aromas.
Ou manda a brisa
virar tempestade.

O diabo é vento,
movimento inventado.
Levitando saias,
eriçando pelos.
E abandonando.

O diabo é volátil
é o que se esvai
evapora
desmancha
dissolve
desprende-se
atmosférico.

É volúvel
vírus mutante
errante
efêmero
confusão difusa.
É o diabo este vento!

Pois que ele me tome
em seus infernais furacões.
Que sou pássaro
e sei bailar no infinito.

19 de jul de 2010

# Versificado


Folha de S. Paulo, 17/07/2010 - Negócios - Matérias Primas
www.versificados.blogspot.com

15 de jul de 2010

Concreto

Gosto da poesia
que nasce na casca do pão,
que rompe esparramando
migalhas de aroma na mesa
antes mesmo de nascer o sol.

Gosto da poesia guardanápica,
de gosto alcoólico,
soluçada no bar.
O verso exalado das camas,
nas cores vivas das vulvas.
Poesia pornodatilográfica:
filha das Olivettis.

Gosto da poesia que salta
dos calos dos dedos,
rascunhada no papel sujo
de suor e graxa.
Poesia que dói
as sedes humanas.

A poesia que nasce
suja de líquido amniótico,
que grita o parto,
que escandaliza.

Isso sim, é poesia concreta.

13 de jul de 2010

Jazz

Teu toque
é tão grave...

É nota improvisada
que me dedilha
trepidando cordas
bambeando pernas.

Um swing segue pelo sangue.
E eu solo.

Se teu jazz me toca,
eu deixo de ser blue.

12 de jul de 2010

Eitcha!

Abestado, o coração pocou,
levou uma pisa.
Quem seguiria
farrapou...

Resta um mal,
uma presepada,
uma biloura.

Restos de léxico alagoano
alagando.

Úmida
tua língua
em meu ouvido.

5 de jul de 2010

Manzana

Ana manzana
tentadora fruta temporã.

Quisera morder
tuas maçãs despidas
aquecidas em compotas
despudoradas, excitadas
curvas morenas carameladas.

Tuas coloridas carnes
cheias de sumo
cheias de samba
nas sandálias.

Quisera morder-te
fruta atípica
cítrica cabrocha.

Venha temprano,
Ana mañana.
Para eu amar-te
da raiz ao sumo.

O Carnaval

Ele não era poesia.
Era apenas um carnaval.

Uma festa sexual
colorindo sua carne,
um pecado úmido de vodca,
um beijo de morango e gengibre.
A máscara de um sorriso
pintada na boca.

Deixou um rastro,
um resto de fantasia,
um perene desejo no ventre
(de samba, de orgia).

O Carnaval regressou,
quartafeiroso,
já sóbrio
como um dia trabalhado.
E fez, fora de época,
múltiplos sons
jorrarem da epiderme.

Ele era apenas um carnaval.
Mas ela,
de repente,
desejou que o carnaval
se prolongasse,
serpentinamente.