30 de jul de 2008

Foto

As cortinas
dos teus olhos
de dentro do retrato
miram-me.
Piscam um clique.

Num contraditório,
és meu negativo.
Um estático vivo
na foto que me fita,
que me fotografa.

Nas retinas do retrato
minha pele
é revelada.

26 de jul de 2008

Almost

Eu
quase-amada
neste quase laço
trapezistamente
saltando triplo.

Eu quase sorrio
a piada pintada na face.
Eu, quase um rio...
quase derreto a maquiagem.

Eu quase toco os incisivos
da fera na jaula.
E os teus indecisivos.

Eu quase sinto o cheiro do teu cabelo,
quase o teu abraço
quando apaga o circo.

Eu,
desequilibrista
na tua linha tênue, teu quase.

23 de jul de 2008

Exame

E se eu me abrisse?

Se o fio deste olhar
fosse corte em meu peito
(que, tal flor, abriria)
para que me visses o avesso...

Se numa tomografia
analisasses
meu amor em fatias...

Se me radiografasses
pra me ver aqui dentro
em profunda fotografia...

Se, estetoscópico,
internamente me ouvisses...

Se eu me abrisse
tu adentrarias?

16 de jul de 2008

Desembarque

Um adotivo caminha
pela sisuda cidade,
desnaturada Medéia.
Capital do impreciso traço,
do passo ritmado,
da perda do siso.

Observa a selva.
Urbe medusamente
esparramada,
de peças mal encaixadas.

Um olhar furtivo
pousa nos bicos dos seios
da catedral da Sé,
que amamentam sonhos tísicos.
Picos que perfuram neblinas,
ozônios, garoas.

Adentra a esquisofrenia:
muitas vozes,
muitas máquinas
escarram flores carbônicas.

Ela, cinza, concretiza
um solo árido.
Um útero
teimosamente semeado.

15 de jul de 2008

Declaração

Nada a declarar à imprensa!

Nenhuma renda ou posse
que valha a pena
dar satisfação ao Leão!
(só à poesia vale a minha pena)

Na certidão,
nos papéis oficiais,
nas notas públicas impudicas
(é preciso descarar!)

Declaro:
é preciso declarar o amor!

14 de jul de 2008

Sob estrelas

No palco gelado
a nudez
embebida de fogo
despudorada
baila.

A platéia prateada
aplaude em coro,
corada.

Vestígios

O vestígio
do poema tinge o lençol,
verte onomatopéicas sílabas
libidinosas, extintas.

Tuas tintas apimentadas,
um resto de verso
respingado no tapete.

Marcas de dentes tatuam,
tateiam faíscas
tempestivas.

Tuas pistas
que me vestem
de um gozo vestigial.

1 de jul de 2008

Desvirtual

Conectados,
um atado nó internético.
Arrepiados rebites,
desritmaquinando.

Replicantemente
implicante pulsação
no coração andróide:
sucata machucada.

Das engrenagens
amassadas
do meu maquinário
pende cibernético néctar:
lágrima oleosa.