30 de abr de 2008

Sem receita

Éramos.
Erramos o tempero.

Sentimento azedado.
Uma fruta passa.
Fio doce da
calda melada saudadente.
Saboroso medo requentado.

Um olhar salgado
a despedir-se
liquefeito...

Hora de pedir
menu renovado.

28 de abr de 2008

Violenta

Tema-me.

Meu toque chamuscado
minha saudade violenta
meu dilacerado verso violeta.
O fogo pelas ventas,
minhas vísceras versadas,
vias lentas.

Tema
meu anátema, meu tango,
meus olhos embriagados.
O vento furacão
rebentado do meu peito.

Tema-me
no poema irrompido
na dor repentina.
Tema este tema mal escrito,
este rito macabro
de poeticamente sofrer.

Tema
meus dentes carnívoros
minha fome monotemática,
sintomática da saudade.
A voracidade,
impetuosidade inebriada.

Tema perder-me.
Amando-me hiperbolicamente
em cada temeridade,
em cada tremor desafinado.

Tema-me,
violenta-mente,
e durma sem medo em meus braços.

18 de abr de 2008

Cura

I

A noite
banha fria a febre.
Os tecidos macios do tempo
enxugam o pranto, a pele.

O nascente sol
dissolve, antiácido,
no estômago,
a dor mal digerida.

Doses diárias de cura.

II

Palavra
analgésica,
verso curativo.
Carícia morfinada
sobre a fina dor.

Um verbo
suturando a ferida
estancando a alma sangrada.

Um verso
que beija a face
sorvendo o pranto.

Só na poesia
um punhal é metáfora de papel.
Tu amassas e joga ao vento.

Ampulheta

Relógio de areia:
fagulhas de tempo
que se deitam obsolentas.

Sonolentos grãos
de saudade cronometrada
quilometrada.

Nascente arenosa
sob envidraçada redoma
(siameses cálices):
A medida do sentimento preso
no tempo que falta,
no espaço que sobra.

Uns sonhos presságios:
pedágios.
Dissolvidos no Saara da ampulheta.

As mesmas dour'areias,
dos meus relógios,
das tuas praias,
que preguiçosas se esvaem.

11 de abr de 2008

Silêncio III

O sol range,
ergue-se à manivela,
enferrujado, cinza-alaranjado.

Motores respiram,
carbônicos.
Buzinam neuróticos.
Brutas britadeiras
mordem o magma do asfalto.
Manhã maquinando
desafinada.

Entretanto, ao meu redor
emudeceram
o maquinário, a britadeira,
as frigideiras, as buzinas,
os camelôs, o sol.

Ouço só seu silêncio.
Sintomático
sinestésico
amnésico
silêncio
...

10 de abr de 2008

Silêncio II

Garoa...
fino lençol de silêncio
sobre a cidade.

Meu gole mudo
parabrisado
contempla na vidraça
teu silêncio garoado.

Garoa sorrateira, surdinosa.
Silenciosa,
não batuca nas janelas,
não troveja.

Desavisada.
Não escorre, não soluça, não deságua.

A garoa
é só esta mágoa
peneirada.

8 de abr de 2008

Silêncio

Uma pausa.
Chuva que paira
em lágrimas estáticas.

Uma pausa
no perfume imaginário da flor
no baile verde das folhas
na queda madura da fruta
desgarrada da mãe.

Uma pausa.

Que engole a nudez
da minha palavra desabraçada,
abandonada em tua mão.

Uma pausa
na respiração dos relógios,
que apenas dormem
em circulares horas silenciosas.

2 de abr de 2008

Armadura II

Rachadura erosiva
acaricia meu rochedo.

Bailes tectônicos
me abalam, sísmicos,
ampliam as frestas.

Incisão decisiva
beija a pele da muralha.

Escudos baixados.
Desmanchados punhais.
Soldados desertados.

Um verso atravessa,
rasga o aço da armadura,
sem sangrar.

Porque todo metal derrete
neste meu ponto de fusão.

Ácida

Deleita-se a contradição.
É um limão e uma lima,
uma rima desritmada,
um riso rugindo.

Agridoce temperamentada,
fermenta raivas picantes.
Aromatiza de lilases
a quaresma.

Incendiária ebulicionista,
artista desroteirizada.

Uma orquidácea poetisa,
inferniza...
acidifica a primavera,
floresce no cinza.