18 de dez de 2010

Guardados

Fazem bem
as nostalgias e os analógicos
presos na relojoaria.
Ouvir vinis
e bem-te-vis na janela
e pequenas velharias.

Às vezes
prefiro o verso
datilografado.
Guardo amores mofados,
uns trecos,
grampos, pregos,
potes usados.

Prezo muito
este pó
sobre os retratos.
O paletó demodê
e o buraco no sapato.

Gosto de deixar
as melhores palavras
alí na caixa de rascunhos
para serem comidas por traças,
envelhecerem safras.

Gosto de passear
no cheiro grisalho dos sebos.
E do amor
que não é para agora.
Guardá-lo
num velho livro
ou naquelas caixas bonitas
que não se joga fora.

Deixa.
Que a pressa não faz bem
nem ao vinho nem ao poema.

Deixa.
Que o coração é grande
e está cheio de cacarecos.

17 de dez de 2010

J'ai lu des fleurs

Do velho hábito
de guardar flores secas
em livros preferidos,
reencontrar os cheiros
em releituras,

te guardo,
te releio,
Lee Flôres.

15 de dez de 2010

De coeur

O verso que a musa
memoriza
já estava lá.
Porque ela nasceu
sabendo-se.

Ela sabe tatear
a tatuagem profunda
que se fizeram.
Invisível
dentro da carne.

Ela sabe de cor
de corpo
de coeur
o beijo.
Decorou
a cor mais precisa
de cada acorde.

De olhos fechados
a musa
sabe de cor(ação)
a canção.
Reconhece
o crepúsculo corpo
que lhe dá a mão.

(Para Nathália, musa tomada emprestada, sem licença)

14 de dez de 2010

Caminhar

O que me alimenta
é caminhar.

Vou me nutrindo
do barro
no qual se fincam meus pés
a cada passo.

Enraízo-me.
Do húmus,
restos, folhas, vermes,
faço seiva e verso.

Saciados
pés de mandrágora
decidem:
E não sem dor
arranco-me
sempre.

1 de dez de 2010

Medusa

Por um segundo
me amas.

E em tua camisa
minhas madeixas
serpentes
mambas negras
vivas
se enroscam.

Por um segundo
encaras meus olhos.
O verso
veneno via iris
tão narciso quanto meduso.

Miras o verso
por um instante
suficiente.

E em teu peito
eu
petri
Fico.