29 de dez de 2009

Camila

(Poema-presente de amigo secreto poético, escrito por mim para Camila Lemos - http://palavrasnofarol.blogspot.com)

O ar denso
de tua ardência
veraniando versos.

Um não saber o sabor
de tua língua,
se siriguela, se graviola.
Tua saliva que acerta
o pingo, a seta,
o ponto certo da calda
e da rima.

Quisera eu ser em dezembro
o versinho mais besta
de tuas alagadas mãos,
tão litorâneas!
Palavras em grãos
no teu corpo de areia morna.

Tu,
de sempre-vivas nos cabelos,
conténs o sal:
nos olhos chorando riachos.
Em versos mares,
que douram sob o sol,
prateiam sob o luar.

Ah, tuas horizon-tonalidades!

26 de dez de 2009

Um ano

Não foi o tempo que passou,
foi uma música apenas.

O tempo não é linear___idade
não é sólido, líquido, gasoso.

O tempo é o gozo de uma dança
Tem ponteiros compassados
por um tango
por um tanto
de areia.

Pinga
365 gotas na ampulheta
365 passos no salão do sol.

Seu passo não é linha reta.
O tempo desliza a sapatilha
em curvas, voleios...

Não foi o tempo que passou.
É só uma música que finda...

Para que me dês o prazer
de uma nova dança
ao redor do sol.

14 de dez de 2009

sider urge

Dispostos em pilhas
os novelos metálicos
aguardam.

Serão tricotados
os fios de aço.
Tecidos em telas,
treliças tantas.

Serão costurados
nas entranhas de muros,
serão estruturas
suturando concretos.

A trefilaria
fia o fio.
Desafia
o sol de aço.

A solda,
ponto a ponto,
ata a trama
de arame estriado.

O suor ácido
é destilado
na aciaria
dia a dia
em turnos
ininterruptos.

Acaba o café.
O aço-carbono
vira sono.

Regurgito
o gole siderúrgico.
Cogito dias
menos sujos.

Ainda em novelos
o aço aguarda.
Em silêncio.
Linha parada.

É fio imaginário
trefilando
as estruturas dos sonhos.

14 de out de 2009

A poesia
acumula na mobília.
Nos cílios em vigília.
Poesia em pó
salpicada sobre os livros,
tapando narinas.

Poesia cocaína
que eu inalo
branca e pura.
Inalo o vício
peneirado, açucarado.
O refino.
O resquício
que a cama exala
pós polinizada
pelo pó
da poesia.

O pó sépia,
poeira pífia,
insípida.
A poesia rinite
que eu tusso
retinta
no lenço.

Faxina. Narina. Cocaína. Fina...

Aspiro carreiras
de rima pobre
em pó.
Industrializada.
Apenas poesia sinterizada.
De poeta
aspirante.

15 de set de 2009

Tango

Um tango sempre morre.
Um tanto, no entanto,
escorre.
Coagula sobre o palco.
Plaquetário. Ordinário.

O tango com a rosa
entre dentes, entre tantas,
morre.
Entretanto,
baila tonto nas entranhas,
descostura entrelinhas tênues
e arreganha a saia.
Salta a perna
que desliza
em ângulo agudo.

Contudo,
ainda é tango
e sempre morre.
Uma entranha que escorre.
Hemorrágica
pelas pernas.
O rímel pelos olhos.
A grafia é tanto sangue
que transborda.

Tudo escorre.
Só se estanca
quando grudam
nossos troncos, nossas ancas.

Cada passo que sutura
uma n’outra
as entranhas
é desestranhamento,
acoplamento,
cópula.

No entanto, é tango.
Sempre morre.
Morre em sangue.
Morre em sêmen.

Escorre.

11 de set de 2009

Bacuri

Inseminada
a palavra no ventre.
Fértil frase.

Poema bom
fecunda em nove meses.

Será feminino ou masculino
este tão substantivo ser??
Sobrecomum.

Um.
Filho dos versos
meus e teus.
Tão novo.

É um neologismo.

5 de ago de 2009

Picante

Beijo
tua pétala:
tulipa púrpura.

Toco
tua penugem:
tapete de pelos púbicos.

Publico
tuas impudicas taras
inter-caladas.

Perfuro
tuas pupilas.

Páprica:
meu poema
em tua papila.

14 de jul de 2009

Soma

Somamo-nos.
Sintônicos e sintomáticos.

Conectamo-nos hipotenúsicos.
Nós,
catetos
inoportunos.

Somamos:
Ângulos no âmago,
cortes no pulso,
ruas desbifurcadas,
mãos dadas.

Da soma
restamos,
multiplicados.

24 de jun de 2009

Grão

o grão na ampulheta
que se organiza
e desliza
para as mãos que tateiam

infinito de
sensações sensoriais
sensações cereais

um saco de nãos
para as mãos

o grão que fecunda
que é feto
submersa semente

sêmen_ti

26 de mai de 2009

Alagoas

Dizias
de um viver afrodisíaco
de permanente embriaguez.
Infindas noites
quentes mantas.

Dizias paradisíacas
as águas verdes
e sereias doces
de madeixas em algas
e alagadas vulvas.

Dizias de solos
chorando cores
sedimentares
sobre os mares.

(Seriam falácias
as tuas falésias,
teus retalhos de terras?)

E teus olhos,
mais que úmidos,
mais ainda
diziam.

E de sereias verdes,
de olhos mares,
de úmidos solos,
de ti
alaguei-me.

23 de abr de 2009

surreal

é de linho o lençol
sobre o qual
o sonho sangra
uma navalha no olho
no ventre, na velha ideia

é branco o lençol
sobre o qual
Buñuel sonha
e coagula
sobre o qual
eu menstruo
a poesia morta

e abro a porta
para idílicos lucíferes
e gastrites taciturnas

é branco o lençol
que se faz mortalha
ou frágil camisa de força
de linho virgem
sobre o qual se desenham
gritos e magrittes

asas de tecido
presas no varal
que pedem tintas inconscientes,
voos

e eu já não sei
se comigo na cama
é Freddy ou Lynch
que me pinta
nua

ou se é tua língua
ou se é um camaleão entre tintas
ou se é...

8 de abr de 2009

(Re)atalhos

Andante minha, manda
por correio
um átomo de riso nômade.

Do lugar onde és vento
roçando montanhas.
Onde os fios fusos e trópicos
dos teus cabelos
são confusos.
Onde, sob o sol posto,
tu metamorfoste bicho.

E lembra que sempre há
uma curva oca
um (a)talhado
buraco de minhoca.

Lá te encontro.

5 de abr de 2009

As mãos

Estas mãos tantas
de metas metacárpicas
sobre o corpo meu.

De precisos dedos bisturis,
tu ris.

E cravas
as depravadas garras
na crua carne.

Minuciosas falanges
dedilham músculos
nas mais agudas notas.

Tuas mãos me tocam.
Eu canto.

4 de mar de 2009

Poemáquina

asdfg hjklç asdfg hjklç

tec tec tec

nos dedos gregos dactilos
meus estilos
tipos grafam
tipos gritam

violenta tecla bate
tec tec
te cortando
alavanca a saltitante letra
carimbando folha branca
tec tinta tec tinta
e troca a fita
e apita
o fim de linha

se saltitantes as letras
pousam uma a uma
lino típicas
utópicas
dançarinas

se sangram grafias
fiam linhas
esses tipos
atípicos

se sustenido
o teclado
(maiu)oscula os tipos altos

eu tipifico um verso torto
atemporal
datilográfico
pterodáctilo
(vindo voando
de tempos idos)

os tipos mudam...

e eu sempre
esta máquina
de escreverso

26 de fev de 2009

Quarta-feira

Findo o carnaval.
Descansa
teu dorso deitado,
teus nus edifícios:
vértebras irregulares no horizonte.

Tento, entre tantos ruídos,
auscultar o silêncio
do teu peito de concreto.

Em teu colo
angulosamente esculpido,
tua cútis cactácea,
tão cuspida, tão estática,
busco curvilínea sensualidade.

E ainda que cinza
esta quarta
(como tantas)
ainda que tão concreta
tua pétrea carne,
sinto teu movimento
de respirar.

15 de fev de 2009

Raio

Pisca teu olho elétrico.
Risco de giz
faiscando o firmamento.
Raio que chama Xangô.

É fluxo de elétrons
destravando válvulas
águas
óleos
elos.

A urbe vaza
pelos poros viadutos,
avenidas e olhos alagados.

Piscas.
E teu olho relâmpago
me chove
paulistanamente.

2 de fev de 2009

Poente

Lentas nuvens embebidas
absorvem as cores
derramadas pelo sol.

Esta tanta tinta poente
de quentes tonalidades oleosas
esparramados purpúreos lilases
acastanhados ocres.

Escorre pelo vão das montanhas
o pigmento tão magma
enigmático
deste instante.

E eu persigo
a última pincelada de sol
caminhando ao horizonte
para rever o rei posto
o ouro líquido
escorrido
no ralo
do vale.
Inutilmente.

Contemplo então
o pingo que sobra
das muitas tintas solares
em teus olhos multicores.

E sinto ainda
queimar em mim
o sol posto.

21 de jan de 2009

Desacordo

Uns novos acordes
ecoam.
Deixam
circunspectos os pássaros
tristes asas circunflexas
proibidas de pousar
na palavra voo.

15 de jan de 2009

Sádica sílaba

A farpa do meu canto
na tua garganta.
Minha sílaba madrugada,
meu ácido pranto,
minha rima
na tua jugular.

Quer te chorar.

O quinto mês

Cresceu fecundo.
Amor
tantas vezes
quase abortado.

E hoje sinto
teus movimentos
fetais
fatais.

Já sei teu sexo,
tuas formas
o rosto, o gosto.

Hoje sei
este amor
que quase parte
que é quase parto.

Sei
nas entranhas
os movimentos
de nascer-te em mim
de nascer-me em ti.

12 de jan de 2009

Se

Audácia muita plantares
isto
em mim
noite adentro
poesia umbilical
ambígua
(se pesadelo ou se sonho).

Que insiste no ventre
britadeiramente
adentra.

Que brota
sem saber se
cabelos em verdes cachos
se olhos lilases
se asas
se sereia-se
se homem
se bicho
parido aos pares
se o broto vinga
se sangra
se...

Que brota
desaborta
desabotoando vetos
esta idéia...

Que sabe doer
ao nascer ao morrer
esta idéia torta
natimorta
que semeaste.

Quem sabe...

9 de jan de 2009

Ciano

Às vezes
viver é um porre.
Uma dose ácida de vodca.

Às vezes eu bebo um blues
anestésico,
meio anil, meio ciano.
Às vezes me engano.

Às vezes
a falta de afagos
me afoga.
E viver é uma adaga.

Às vezes
viver é dose.
Etílica, posológica.
Um drink de dúvidas.

Às vezes
viver é um copo
de cianureto.

6 de jan de 2009

Desafio *

Eu truco
o poeta marqueteiro!

Este algo
atrás do teu olho
que grita um (m)urro
hiperbólico
aos eufemistas...

Este grito sinusite,
que regurgite dissabores
(língua ígnea draconiana).
Que explicite teu pe(s)cado
meticulado, imaculoso, promiscarado
(perdoado).

Eu truco
teus verti(hai)kais,
teus cheiros guardados em livros.
Tua rima garapa,
teu pastel de in-vento.

* Poema que fiz de presente de amigo secreto poético para Alex Pinheiro. O amigo secreto foi organizado pelo pessoal do Blog de Sete Cabeças: http://blogdesete.blogspot.com/ onde esta poesia foi publicada no dia 24 de dezembro de 2008. O Alex é um poeta muito bom, do blog Invent0: http://invento0.blogspot.com/

Ciúme *

Tido e despossuído.
Ido.

Querer tanto
e tentar
e arder.
E despertar.

Querer ter
e des-ter
e despir o ter,
a tez,
um triz.

Um tanto querer ter-te
que para mim basta
abs-ter-te.


*Publicado em 3 de setembro de 2008 no Blog de Sete Cabeças: http://blogdesete.blogspot.com/