23 de nov de 2010

Eu cedo

O que dar ao poema
que acorda?

Eu
de leite.
Um resquício
de madrugada sonhada
insiste.
Derrete no pão.

Aroma fresco
nos poros do filtro
coando
destilando flores.

Colho o trigo,
reconheço
a estação, a safra
salivando o açúcar.

A fome matinal
do poema
cede
sabe.

É cedo ainda.

16 de nov de 2010

Indício

Sei da terra erodida
dos grãos que ficam
de sulcos rugas

da então dor
do lábio
medo humano
de se dar e se morder.

Mas se eu orvalhar
na terra, na verde folha,
uma saliva suficiente
ou jorrante,
não tenhas dúvida:
amanheci.

13 de nov de 2010

Flores

Entre nós
uma geografia inteira.
Caatingas, cerrados, concretos,
estados, trópicos, fronteiras.

Eu sei.
Não há espaço
para o toque utópico,
o metafísico.
Não há tempo
para o verso
que não caiba
no estilingue.

Mas te prometo
um amanhecer
em que apenas os pássaros
não façam greve,
em que as flores
ousem cobrir
violentamente
o asfalto.

Então seremos,
tu e eu,
flores.

(Para Lee Flôres, pois eu não me canso da expressão pré-fabricada existente em seu nome)

4 de nov de 2010

Provocação

Hoje
eu quero adentrar
na vagina úmida
da palavra sexo.

Quero que bocas,
seios, pênis
signifiquem
exatamente o que são.
Lambê-las todas.

Hoje
não meto metáforas,
metonímias, eufemismos.
Ainda que haja
de leve
uma metalíngua,
esta poesia
apenas penetra
o literal.

Hoje
vou chupar a palavra pênis
em cada letra, pingo e gota
até ela ficar bem feliz.

Só hoje,
nada de sutileza.
A poesia
vai dizer safadezas
em seu ouvido.
Escrever será um prazer.

E no clímax,
no ápice da palavra clítoris,
a poesia vai gozar.

E você vai gostar.