26 de mar de 2008

Tática

Tic tac tic tac tic tac
Tanta hora tanta hora...
Não estar contigo:
ártico atípico em mim.

Teu distante toque,
átomo que resta
tateando-me
tac-ticando tac-ticando...
a mesma temática.

Tempo tempo tempo
Ponte-continente
Lento ponteiro

Teus olhos
vitrais absínticos
piscam tic tac tic tac...

Distância:
tua tática cortante
que ataca-me, ata-me
tac-ticando tac-ticando...

25 de mar de 2008

Tempos de amar

É imperativo afirmativo
infinitamente viver.
Meu infinito infinitivo
enfim
num gerúndio continuado.
Infinitando... Alfinetando...

Neste indicativo presente
amo
a primeira pessoa.
Mas a segunda
é um tu
cheio de tesão.

Oscularia
aquela terceira
num futuro do pretérito
não preterido, preferido.

Também fui feliz
nos braços daquele passado
imperfeito, defectivo.

E se pudesse,
violaria a liberdade condicional
de um confuso subjuntivo
subjetivo.

Conjugo no plural:
revolucionar o mundo.
Nós
num futuro mais-que-perfeito.

24 de mar de 2008

Boneca rubra

Dorme, criança
emaranhada.
Porque em teu sono
descansam afiados trovões.

Dorme, boneca cacheada.
Cerra tuas labaredas,
teus universais olhos,
tuas longas cortinas de cílios.

Dorme, pequena bruxa.
Tua porcelana pintada
cobre interior ígneo,
rochedo em marcha
a exorcizar espectros.

Dorme,
russa matrioshka,
em teu vestido rodado.
Porque teu sono nublado
prepara, sereno,
uma alvorada desalienada.

22 de mar de 2008

Elo

Garganta
que jorra o banzo e o guizo.
Dentes que beliscam
o universo com um sorriso.
Que são liras
Que são prismas.

Tu provocas, tu esfinges,
com a boca que é foice, é fruto, é flor.

Música
que brota dos dedos, dos pulsos,
dos olhos de semicolcheia,
dos pés que bailam
no palco das veias.

No momento blue
a poesia estava ao meu lado:
Era elo, era ela.

20 de mar de 2008

Poema cuspido

Perdoai
o anarco-verso caótico
revestido de capital,
a gota de lírio
cuspida no asfalto.

Perdoai
o espontanilirismo
neo-romântico
das desaguadas secreções.

Perdoai
as vísceras expostas,
o violento clichê,
o libidinoso neologismo
não planejado.

Perdoai
o verborrágico
o verso hemorrágico
sintomático deste carnaval.

Perdoai,
ela não sabe o que faz.

Desfragmentação do poeta

Poeta em pedaços,
pirata sem caneta, sem proa,
imprudente,
ensaiaste abortar o verso.

No ralo
o sumo de um grito
a raiva, a bile,
o soneto não expelido.
Estancas a seiva
que supre verdes dias,
o sangue, a dor diluída,
o sal líquido dos olhos,
os óleos petróleos
que irrigam labaredas.

(...mas uns sedentos
violam lentos
tua sala cirúrgica,
defendem futuros rebentos...)

Não temas
teu poema-diário,
teu confessionário,
teu bandido heterônimo.
Não temas
o anátema, o parto.

Desfragmenta os versos,
teus frascos de sonhos
quase amputados.
Costura o ventre
das abandonadas estrofes
ofendidas.

Teu verso quase extinto
não precisa de lápis, tintas.
É bisturi.

18 de mar de 2008

Tango mal bailado

Ora somos simetria,
pernas e verbos conjugados,
engrenagens engatadas.
Um desejo,
uma coxa que te escala.
Pernas lascivas laceiam-se.

Ora bailamos um contra o outro,
marcha empurrada, ritmada,
batalha de contraditórios.

Casal de verbos
descompassados:
te machuco, tu caminhas,
eu caminho, me machucas,
me machucas-te.

Eu te conduzo, tu me conduzes,
deslizando círculos,
mil voleios,
espirais históricas,
felino passeio.

Tecidos mal contornam
os convexos da carne.
Carnívoros versos
deslizam, ruborizam
o bandoneon.

Uma caminhada purpúrea.
Una marcha roja.
Dois aromas que se mordiscam.
Tão emaranhados
que ainda entre batalhões
marcharíamos entrelaçados.

Pero
tuas passadas cruéis
perfuram minha harmonia
de corada face.
E já somos freios bruscos
no breu fosco do palco.

Há desencontro, desencanto.
Corpos formam cantos,
cantam sinuosos versos,
pés circulam sonhos.
Tangamos,
tombamos
em ângulo oblíquo
apontando vértices e sapatilhas.
Adagas e ganchos
perfuram o palco.
...
(Compasso de espera)
...
Sangra uma blasfêmia
entre os seios.
Tomba a rosa.

13 de mar de 2008

Celina

Em São Paulo
não há céu.

Densa bruma
cinzento véu
veste a capital.
Sinistro dossel.

Sem céu
chora a garoa,
escorrem tristes
os metrôs.

Não pingam estrelas
na capital sem céu.

Busco céu
nas anônimas esquinas,
nas vitrines
nos celestes edifícios
nas avenidas celinas.

Ai, que saudade
de cel.

11 de mar de 2008

Mescalina I (ou Conversando com o Aldous I)

Abro pupilas, portas, peito.
Percebinfinitamente.

Alucinógeno cacto
potencializando sentidos,
hiperbolizando
sinestesias.

Alucinações,
explosivas metáforas
vivas como elefantes.

Insanidades e
pupilas dilatadas.

Poros e vasos abertos:
sentindo mais o mundo.
Desacelerada
respiração.

Próxima morte
overdósica,
dose dupla,
dose múltipla.

Minha droga, meu vício,
minha mescalina,
meu alucinógeno verso.

Mescalina II (ou Conversando com o Aldous II)

Abro pupilas, portas, peito.
Percebinfinitamente.

Salivo-te,
aspiro inspiro respiro
a baunilha, o leite.

Sorvo teu acre azeite,
ímpetos liquefeitos.

Bebo o olor dos pelos:
cidreira pisada.

Lambilentamente
em linhas íngremes,
percorre os pudores,
os cheiros.

Dez bocas
chamuscam a derme.
Dormem as pálpebras.

As notas tocam, disformes,
tangos, vozes, carnes.
São sussurros
tateando concavidades,
completando o blues.
São zumbidos
mal vestindo, arrepiando
os convexos.

O quarto
é um quadro expressionista,
ondas de Munch,
um disforme
gabinete de Caligari,
em cores.

Frêmitos
irrigam a carne.
Fusão, labareda espasmódica.
Ponto de ebulição
que percorre pernas, ventre,
enverga o tronco
crepitando.

Navegando em endorfina,
interna morfina,
o corpo canta.

Mescalina IV (ou Conversando com o Aldous IV)

Abro pupilas, portas, peito.
Percebinfinitamente.

Há uma dor
pulsando
na sarjeta da capital.

Há um fedor
espumando
nos dentes da cidade.

Uma sopa de
rachaduras,
cinzentos letreiros,
palavras sem idioma.

Lares e sonhos de papel.
Céu ausente.

Mescalina III (ou Conversando com o Aldous III)

Abro pupilas, portas, peito.
Percebinfinitamente.

Dissolvido no álcool
o sumo da noite
o sono, a súplica.

A cor da aurora
na fresta
mescla o mate,
o turquesa, o ouro,
o sangue.

O vento pousa
nos verdes
nos sabiás
na nudez.

A garoa cessa.
A capital acorda.
Automotores rugem.

10 de mar de 2008

Marina

Mira a menina,
a sina,
a alucinação,
a beleza felina,
florina.

Mole menina,
ilumina o breu da mina,
a ferina.

Mira a menina,
mira a maré
da retina.
O mel da crina
cobrindo branca lira.
Mira!

Mira a brisa
do mar de Marina
mira suas mechas,
e os medos
de mil marinas.

Mira os marujos
mareados.
A maresia
dos mortificados.

A menina
nina o sono
dos naufragados,
dos libertinos.

Fina menina,
desta redoma,
deste destino,
desta rima,
me redima.

Armadura

Grades líricas,
lanças, lírios
não podem me ferir.

Cobrem est' alma destilada
sólido rochedo,
armadura de músculos,
rígidos alicerces,
ossos de aço.

As feridas
bordaram calos.
O sangue coagulou,
rejuntou meus tijolos,
minha muralha.

Apenas o júbilo
vê janelas em mim,
frestas na fortaleza.

Armada.
De punho férreo
e vísceras de nuvem...
De olhos amalgamados
e pulmões arejados...
De poesia interior
e voz em riste...
Enfrento o mundo
e o teu sorriso.

7 de mar de 2008

?

É teu ou meu
o poema?

Busco o beijo na bala
e verso-te.
Multiplico-me em teu riso
e palavro-te.
Desmancho-me na memória de tua pele
e silabo-te.

Deleite meu
é usar-te,
alimentar minhas veias,
meus brônquios,
meus poros,
da poesia
que me provocas.

4 de mar de 2008

Toque

A noite
embriaga-se
do invasivo aroma
da ausente carne.

Destila o caldo
de um gesto.

Sedenta,
bebe as gotas
reprimidas,
espremidas
de um sorriso.

Embebeda-se
de vulcões internos,
infernos líquidos,
fervores.

A noite alvorece-se,
é pluma na face,
úmido toque,
uma gota de tez,
um segundo de ti.