9 de jun de 2011

Felino

Ficaram expostas as substâncias.
Lambemos tudo
que permanece sobre os pelos
quando o poema ultrapassa poros.

Lambemos
lascas de chuva borrando a janela
e o matrimônico anel de saturno.
Em ambas as línguas
nossos noturnos gomos.

Sob a asa do lençol,
a textura amniótica
do teu colo felino,
masculino útero.

Quando tua língua
secou lágrima acre
de minha pupila vertical,
devolvi
a concavidade serena
de guardar.

Em tua papila
me guardas, doce.
Em minha língua permaneces,
verso.

22 de mar de 2011

Tintura

Não preciso me pintar
para que borboletas
me entendam flor.

Unhas nuas.
O lábio colorido apenas
pelo beijo.
Desprovida de laço de fita.
De rímel, rendas, riscos.

Minhas cores
próprias, únicas,
não escorrem sob a chuva.
Levo-as,
rubras,
no peito.

11 de mar de 2011

Turvo

Em teus negros olhos,
flores de petróleo,
aprendi a ver
coisas que não existem.

Teus olhos
de águas turvas
onde jazem tão misturados
o lodo, a iris, a pupila,
a verdade, a mentira.

No negrume líquido de teus olhos
ergueram-se castelos
de obscuros calabouços.
Devaneios.

Até que um dia
teus olhos de petróleo
derreteram.

23 de fev de 2011

Acalanto

Desperto teu sono pueril.
Meu vinil arranhado
quer te tocar.

Teus dedos
brincam canções
nos meus músculos.
Em teu corpo
faço lira,
me deleito lúdica,
pulo corda
do teu violão.

De teus lábios
brotam pássaros
feitos de devaneio
trinando acalantos.

E em teu colo,
fino lençol
de pele de criança,
adormeço.

17 de fev de 2011

Tangente

Tu tangencias,
tão tântrico.
Lambendo a beira orgásmica da libido.
Língua solar na borda do seio do horizonte.

No ponto único crítico e clitórico
em que me interceptas:
toque tão retilíneo
da ponta dos dedos
sobre minhas curvas;
neste ponto me encontras
tão completa.

É exata e matematicamente
esta tua tanta tentativa de apenas tangenciar
que, inevitável, me perfura.

1 de fev de 2011

Das coisas tuas

Da mágica fecundada
encubada
nas cores do cubo;

da nudez da fruta
penca de peças brancas
despencando do tabuleiro;

do aço cirúrgico
que atravessa
a língua
o peito
e surge e arde urgente
dentro do beijo;

da veia que se salienta tão azul
costurando tatuagens:
marcas
que te maculam;

das pencas de coisas tuas
extraio
destilo
o medo de pisar a uva
e ela vinhar
vingar copo e corpo adentro.

18 de jan de 2011

Nuas uvas

As uvas pedem
que tua paciência
as descasque.

Uvas
que se sabem lentas
quentes pencas
esperadas.

Elas pedem
que pouses
o breu do teu
contemplar
sobre claras carnes nuas.

E só então
após
e apenas
que mordas
que chupes
uvas
com a avidez de vulvas
e a delicadez de avencas.