28 de mai de 2008

Ninfa

Metamórfica.
Mede formas,
descarta casulos.
Novas asas,
flamejante par de luas.
Ávidas.

Camaleônica.
Formosa carne
tatuada de mistérios
despe-se de amorfas cascas.
Mata fusos imprecisos.
Dá vida.

Dialética.
Espiralada serpente
multifacetada.
Mitológica flor.
Reescreve linhas.
Da vida.

Fera transformítica.
Alada.

27 de mai de 2008

Capitu

És frêmito
em minha pele.

És fêmea boca,
pêssego úmido.
Ressaqueado
olhar machadiano.

(quero a ponte,
um arco,
pra estas íris)

Sou dissimulada poesia
que te beija.

24 de mai de 2008

Poesia

Minha poesia
vaidosa
mira-se no espelho
reflexiva,
atrevidamente.

Minha poesia
narcisa
é viva personificação.
Ela te olha,
oblíqüa monalisa,
sedentamente.

Minha poesia
egocêntrica
mete a metalíngua,
lambe a si mesma,
felinamente.

21 de mai de 2008

Tua impaciente

Somatizo.
Sintomatizo sentimentos,
dores líricas e literais.

Ansiedade espessa
circula no opioso plasma,
lenta artéria.
Matéria inquieta
se aboleta no tórax.

Impaciente desejo,
adoentado, doendo...
ardendo ulceroso.
Virulento gozo
contagioso.

Desejoso sonho
avidamente transpirado.
Febre delirosa,
prosa desconexa,
salivácida.

Juízo gangrenado,
em irreversível coma.
Benigno? Maligno? Digno?

A desmedida da cura
vem em doses distalentas.
Falacioso placebo.
Remédio rimado.

A medicina diz incurável.
Indiagnosticável.
Insano.

20 de mai de 2008

Insônia

Olheiras enluaradas.
Olhos neblinados
de insone silêncio.

Infinda madrugada
insoniada de ti,
brotando sonhos despertos.

Brancas paredes:
folhas caladas.
Toco-as a giz,
escrevo um grito,
estremecendo concretos.

As paredes mudas
florescem em pétalas rajadas,
flor madrugada.

E abrigada de rabiscos,
cubro os olhos.
Nino de poemas
as olheiras já minguantes.

18 de mai de 2008

Pressão

Sons socam as têmporas.
Dor temporal.
Tua tempestade em minhas artérias:
repressão circulatória.

Tempo espesso,
giralento mundo,
insípida sede
(de versos, de ti).

Pálpebras pendentes
(hiper tensas).
Um aperto.
Pressão, impressão difusa,
confusa pressa.
In pressionada mente.

És poema impresso
inexpressivo
no meu mundo de pura
im-pressão.

Palavra

Repentina palavra-flor,
piegas letras petaladas.

Palavra insone
rebuliçosa no peito.

Palavra foragida
desaforada.
Arfante faísca.

A palavra bebeu vodca.
Cambaleou.
Vazou de mim,
lágrima transbordada.

Pousou nua em tua mão.

14 de mai de 2008

Respiração

Inspiras, expiro.

Inspiras
poemas mil em mim.
Expiro,
morro em cada verso.

E revivido respiro:
dos choques,
dos teus elétricos olhos.

Constante
sístole e diástole:
és poema
bombeando pulmões,
vias, vida.

Inspiras. Respiro.

12 de mai de 2008

Oração

A frase laminosa desilumina a noite.
A frase fura, injeta espesso veneno
no firme músculo da razão.
Descoordenada oração adversa.

A ponta, o ponto final frasal
perfura o escudo toráxico
desarmando... desamando.

E uma sintaxe sentida
impregna no sistema circulatório
seu plasma, licor mortal.

Como é que uma frase destas
ao sair pela boca
não te amarga a língua
não te seca a garganta
não te gruda os dentes
não te dói na espinha?

Cala as frases dolorosas.
Quero desta boca
só o poema mais beijado,
coordenando (c)orações.

9 de mai de 2008

Fesceninidades

jorrada

..............das grutas úmidas
..............das gotas oníricas
..............dos contidos recônditos

..........................minha prosa líquida
.....................................................goza
.........................................................literapura.......
................................................................................:
................................................................................:........ . . .

Baile de Más-caras

Mentira:
Máscara aveludada
que brinca no baile.
Brinda os medos,
embebeda.

Más caras,
ocultadas finas damas
mesclando verdades.
Faces sem olhos.

Caricatos falsos risos
embaraçando as serpentinas.
Trançando tramas,
tramando rimas.

Mentira:
Orgia mascarada
nas sombras do jardim.
Falsas peles suadas,
sintéticas.
Embebidas em gim barato,
perfume chinfrim.

Ácida,
derreto os panos,
desnudo rostos.
Faces azuis cadavéricas.
Tolas piritas
desfantasiadas.

E cubro meus olhos,
máscara de cetim.
Deixo nua a boca:
para teu beijo
de mentira.

8 de mai de 2008

Sem adjetivos

O verso
era fome, era sede.
E a sede era tanta!

A boca da moça
era rima, era corte, era fruta.
Era mais.

O sonho era corpo demais,
tão cheiro, tão cor.
E que gosto!

Nas portas dos olhos,
nas brechas do peito,
tudo era tão muito!

Que a menina,
passeando
pelas palavras,
pintava, coloria.
Adjetivíssima.

7 de mai de 2008

Jura

Semivogaleie meu atraverso...
Complexa carne de nuvem,
que de tão leve,
tão viva,
tão lírio,
fere.
.
.
E eu juro sangrar a vogal
e a haste da semínima,
escorrer as canções,
as guerras,
feridas.
.
.
Juro despetalar o monossílabo,
ser gota áspera na goela,
arrepiar todos os pêlos
do núcleo do sujeito.
Seminua
sílaba.
.
.
Juro ser incoagulável corte,
fenda descosturada,
uma pontada
nos contos,
na fada.
Doer.
.
.
Juro ser o fio da flor afiada,
púrpura pétala cortante,
atraversar a semivogal,
ferir no verso último.
Ser uma injúria
em Julia.
...
.
.

5 de mai de 2008

Sede

Mirar-te,
disparar de meus olhos
flecha flamejando
salivante desejo,
despido, despudorado.

Ser adaga salivosa
cravando-te tetânica infectante,
absorvendo a carne,
contaminando-te:
minha peçonha doce
em tua pessoa.

Ser lança lírica
deslizando alcoólica,
ferindo-te deliciosamente
de minha arma amorosa.

Libidinosa.

Queimar-te sedentamente
em meu corpo, chama tremulante,
queimar-te vivo,
ávido, lascivo.

Beber-te
libertinamente.
Para sermos nascente,
desnudos, estáticos, mudos,
deitados sobre lençóis freáticos,
deleitados.

Levar-te em meus rios,
abraçar-te dormente,
com meus braços galhos afluentes.
Infinitar teus ébrios sentidos
em minhas águas fluentes,
ceder, calar a sede,
ser em ti
fonte infinda.
Ser-te.