30 de set de 2008

Big Bang

Tudo era tato
em seu breu
(matéria escura, espaço).

Tudo era toque, gesto, gosto:
movimentos centrípetos.
Nela um universo denso:
singularidade de sentidos,
condensando estrelas, universos.

Tudo era toque cego
mãos e bocas multiplicados,
matizes arcoirisadas ocultas.
Partículas que ela suga e ferve
em seu útero galáctico.

Adentrá-la.
Vítima de sua força cósmica.
Arremessado:
cada quântica partícula,
cada canto desejoso,
pra dentro dela, densa.
(Ele: apenas um gole
em seu infinito gozo).

Ela explode
e escorre
um universo em expansão.

26 de set de 2008

Ser raiz

Em tentacular movimento
adentro-te.

Ávida,
te cravo
meus dedos dendríticos
meus afluentes sólidos
minhas pontas
ápices
que te abraçam
te arranham.

Eu te sugo. Alimentada.

Depois
inutilmente tento
me arrancar de ti.

Ser flor

Ela botão.
Desabotoa
a saia:
petalada corola.

Aberta
é puro cheiro.
É veludo.
É cor.

Ela pistilo
aguarda o toque.

Ser fruta

Bebeu o sol
e, amadurecida,
atirou-se do galho
alcançou o solo
rompeu-se.

Expôs sua carne repartida
o âmago das sementes
o sumo
que, destilado,
exalou-se
preenchendo o ar.

Abriu-se (alegre)
e, repentinamente,
colhida de si
sentiu-se ferida.

20 de set de 2008

Um diálogo vetorial (VR = ?) *

AÇÃO DIZ:

Poesia:
esta força
antigravitacional.

Cada vez que é lida,
te impulsiona pra cima.
Sustenida.

Cada vez que abandonada,
a gravidade te joga pra baixo.
Desgarrada.

Em tua direção
(cheia de intensidade e sentido)
espera gerar igual reação.
.
.
.

REAÇÃO DIZ:

Que venha
um valente vetor.
Que atravesse
vertical, vagaroso,
as veias (vivas?):
avermelhados vales.

Que venha!
Eu não veto a vetorial poesia:
esta força visceral,
antigravitacional.

Que venha o vetor
em sua grandeza dinâmica
ferir minha estática.


(*Em parceria com Alicia Ayanami)

16 de set de 2008

Ensaiada

Se meus panos sinuosos
serpenteiam, rodopiam,
se apenas me lambem.
Se a saia tem dedos
que me tocam ávidos.
Se ela infla de ventos
se me inflama os sentidos des-ensaiados.
Se me dispo a um teu pré-sopro libidinoso
exalando flores púrpuras e seus cios.
Se me visto de vento.

Tu lagarto lento lento lento
sobes pelas saias.
Se elas são cortinas acetinadas,
se sou janela
boquiaberta entrepanos entrepernas.

Se chegas doce, escorregadio.
Se ensaias um verso em meu umbigo. Mordido.
Se me encontras: eu, esta ferida líquida
que lambes, aveludada,
este cume de mim.

Então sou gozo que chora
pela fenda, pelos poros, pelos olhos,
pelas saias.
Janela descortinada
des-ensaiada.

11 de set de 2008

Preparo

Minha carne
toda feita de enquanto.

Aguarda o encontro.
Temperada de pensamentos,
acende-aquece-fervilha-cozinha-amolece-queima...
A carne é preparo, é anunciação.
É esfomeada fenda que te saliva.

Tua carne
toda feita de encanto.

9 de set de 2008

Da redação

Ela diagrama eternamente.

Ela derrama éter na mente.
Ela é dia, ela ama, ela eterna:
ela mente.

Desafia.
Desfia o dia, a grama,
ela amando ternamente.

Lê-la
e tê-la na mente.

Diagr-amada.

5 de set de 2008

Forjado

O adeus:
lâmina de aço afiada.
O fio cravado na carne
pinga as dores e licores dos dias.

O músculo expele
o aço regurgitado cuspido devolvido
em fervor, fundido.

Espera-se
que o adeus de aço derretido
(chorado sangrado)
esfrie
solidifique
endureça
este coração.