26 de out de 2008

Blues

Acordo.
É tua a mordida azul
de tatuadas notas
em meu corpo. Sangro.
É meu o banzo
que chora na tua corda.
Que é de aço, mas é bamba.

Acordo
pensativa e pentatônica.
Meu acorde arranha longo o âmago.
Ecoa rouco molambo,
flor gutural.
Pede que acordes.

20 de out de 2008

Ato

Ata-me:
meus pulsos em tuas rimas:
nós poéticos.

Ata entre teus dedos
os tensionados fios
dos meus cabelos
dos meus medos.

Ata intenções ao meu ouvido
e sobre os olhos a máscara de breu:
o obscuro verso teu.

Atemos bocas e braços:
nossos átomos
em ligas covalentes.

Ata a nudez da tez
em teus dentes
vampíricos, ateus.
Contorna rente o tronco.

Ata os laços oníricos.
Num ato,
costura nossas carnes
com tuas palavras e unhas.

Atemo-nos
num desacato ao recato.
Amarremos os ritos
em noturnos panos.
Atuemos.
Dolorosamente.

14 de out de 2008

Inside

Teu corpo é tão pétala
e minhas mãos te gostam
assim rubra lenta e líquida.

E dentro de ti
me recolho
me molho
me morro.

8 de out de 2008

Ouvres-toi

Abre-te.
Escancara o odor
de tuas pétalas.
Abre teus sésamos,
teu âmago esfíngico,
que eu finjo decifrar.

Abre-te.
Rasga, a dentadas líricas,
a boca do silêncio,
a caixa do tórax.
Despedaça
as cascas, as vidraças,
perfura a armadura.

Abre
tuas vias: férreas artérias.
Libera os pedágios.
Sê erosivo
em teu vivo rochedo.

Abre-te.
Sê fresta, des-tranca.
Desabotoa chuvas guardadas.
Segredos envelhecendo
em garrafas sem safras.
Destrava. Derrama.
Dá-me a chave.