30 de dez de 2008

Monorgia

Se vendados os labaredos olhos,
pareciam incontáveis:

Descortinadas bocas arreganhadas
esfomeados dedos e línguas
sugam vértices arrepiados
contornam arestas e convexas carnes
adentram fendas e recônditos côncavos
tateiam ora ferinos ora sedosos
penetram fenêtres, aguardam sedentos
os versos escorridos entre pernas
o poema úmido gutural
as minhas multiplicadas borbo-letras líquidas.
Incontáveis.

Mas eras tu apenas.

18 de dez de 2008

Dissabor

Não sou
tua flor.
Sou bruta.

Sou espinhosa.
Saborosa
fruta de cicuta.
Prova a gota!

Cansei de esperar
teu verso vadio.
(frio)

Vou te injetar
meu dissabor.
Peçonhenta palavra
de desamor.

14 de dez de 2008

Para de-gustar

Peles de framboesas dormem nuas.
Salivas sorvem o despertar.
Tuas mãos ágeis derramam
o amarelo aroma curry desta aurora.
Deixa dourar.

Me gusta tua pele adormecida sob o fogo:
queijos beijos quentes
acariciando meu tom jasmim,
o alecrim da minha nuca,
o cheiro de mim.

Degusta o gosto dela:
canela e mascava cana
salpicada de giz.
Degusto a pitada jalapeña
flambada no mel do teu olho
temperado de dor e dúvida.

Me gusta lamber-te
a fervura do corpo, o copo de ti,
a penúltima gota azeite.

Prepara e condi-menta
este amor, este anil, este aniz,
em banho-maria, em manjericão.
Em pitadas macias dos dias.
Insacia-te.

7 de dez de 2008

D'ocê

pede colo e beijo e bis
diz que talvez quem sabe se
sê acre e doce em minha língua
míngua, e então reaparece
tece nuvem em fio açucarado
amado meu de gás hélio voa
e soa como se niño fosses
doce algodão menino meu

5 de dez de 2008

Subversos (Ainda)

sob
unhas roídas famintas, sob
as chagas gangrenadas, as não suturas, as in-curas... sob
as sedes desérticas, as desjardinadas rosas, sob
as engrenagens deslubrificadas, as desarranjadas ruas metrópoles, sob
os viadutos escorbutos brutos, sob o luto, sob
o sujeito oculto da oração imper-ativa, sob
o vento aromado na face, a aurora, o árido, sob
o amargor líquido dos dias, as digitais dos calos, sob
os ralos gástricos, as reles marcas feridas, sob
histórias relidas idas, as rotineiras lidas, sob
o cheiro ainda vivo vindo das matinais padarias, sob
teus olhos narizes bocas rugas vítreos

duelam dialéticos
a rima triste do meu tempo
e a por vir poesia

Poema número 100

Sentes o poema?
Meu tema tão santo,
tão sinto...

Esta insone centelha
sem rima,
absíntica.

Sentes
o centésimo
do milímetro
do meu poema?

Meu poema
sem ti
sem número...
100-tes?

2 de dez de 2008

Hipérbato

Inverto.

Vertingens verto.
Inventos inconvenientes
verso eu.
Dou-te pois, seu é este.

E se meu fosse
mais que revolucionices verteria.
(Mais que em versos ver-te).
Sub-versiva forma seria.
Um inverno in-verso ver-teria eu.

Pois despetala
desespirala a história
este primaveril sub-verso:

Um sujeito histórico
inobjeto
à frente do verbo é posto.
De frente hiper batendo.
À aurora rente.

E a (des)ordem esta
que se sub-verta!