26 de fev de 2009

Quarta-feira

Findo o carnaval.
Descansa
teu dorso deitado,
teus nus edifícios:
vértebras irregulares no horizonte.

Tento, entre tantos ruídos,
auscultar o silêncio
do teu peito de concreto.

Em teu colo
angulosamente esculpido,
tua cútis cactácea,
tão cuspida, tão estática,
busco curvilínea sensualidade.

E ainda que cinza
esta quarta
(como tantas)
ainda que tão concreta
tua pétrea carne,
sinto teu movimento
de respirar.

15 de fev de 2009

Raio

Pisca teu olho elétrico.
Risco de giz
faiscando o firmamento.
Raio que chama Xangô.

É fluxo de elétrons
destravando válvulas
águas
óleos
elos.

A urbe vaza
pelos poros viadutos,
avenidas e olhos alagados.

Piscas.
E teu olho relâmpago
me chove
paulistanamente.

2 de fev de 2009

Poente

Lentas nuvens embebidas
absorvem as cores
derramadas pelo sol.

Esta tanta tinta poente
de quentes tonalidades oleosas
esparramados purpúreos lilases
acastanhados ocres.

Escorre pelo vão das montanhas
o pigmento tão magma
enigmático
deste instante.

E eu persigo
a última pincelada de sol
caminhando ao horizonte
para rever o rei posto
o ouro líquido
escorrido
no ralo
do vale.
Inutilmente.

Contemplo então
o pingo que sobra
das muitas tintas solares
em teus olhos multicores.

E sinto ainda
queimar em mim
o sol posto.