23 de abr de 2009

surreal

é de linho o lençol
sobre o qual
o sonho sangra
uma navalha no olho
no ventre, na velha ideia

é branco o lençol
sobre o qual
Buñuel sonha
e coagula
sobre o qual
eu menstruo
a poesia morta

e abro a porta
para idílicos lucíferes
e gastrites taciturnas

é branco o lençol
que se faz mortalha
ou frágil camisa de força
de linho virgem
sobre o qual se desenham
gritos e magrittes

asas de tecido
presas no varal
que pedem tintas inconscientes,
voos

e eu já não sei
se comigo na cama
é Freddy ou Lynch
que me pinta
nua

ou se é tua língua
ou se é um camaleão entre tintas
ou se é...

8 de abr de 2009

(Re)atalhos

Andante minha, manda
por correio
um átomo de riso nômade.

Do lugar onde és vento
roçando montanhas.
Onde os fios fusos e trópicos
dos teus cabelos
são confusos.
Onde, sob o sol posto,
tu metamorfoste bicho.

E lembra que sempre há
uma curva oca
um (a)talhado
buraco de minhoca.

Lá te encontro.

5 de abr de 2009

As mãos

Estas mãos tantas
de metas metacárpicas
sobre o corpo meu.

De precisos dedos bisturis,
tu ris.

E cravas
as depravadas garras
na crua carne.

Minuciosas falanges
dedilham músculos
nas mais agudas notas.

Tuas mãos me tocam.
Eu canto.