31 de mar de 2010

Sensoriais

Há que calçar
luvas e meias de formigamento,
romper a trincheira cutânea.
Tatear.

Há que sentir
a pasta chocolatinosa no estômago,
as ondas elétricas
pelas fiações dos nervos
até os dedos.

Há que ver
através do parabrisa
as luzes úmidas da cidade
pinceladas por Monet.

Dançar
um tango sob esta chuva,
melodia escorrendo pelo dorso.

Há que sentir
o aroma herbáceo da manhã,
um filme com cheiro de alecrim,
uma garoa sobre as folhas de ficus.

21 de mar de 2010

Rascunho (ou Tentativa de suicídio)

Riscado a gilete
rascunhado
nos punhos

irreversível
rio
escorre...

Apenas ensaio
estancado
liquidado
liquefeito,

terra sulcada
semea-dor.

Profundo vinco
vinculado a ti.

sapiens sapiens

Querem-te máquina.

Tua esperança
dia a dia desbastada.
O tempo
oxidando articulações,
usinando sulcos em tua face.
E não é fácil
facear a dor.

Querem-te máquina.

Tuas artérias e veias,
vias hidráulicas valvuladas,
em sobrepressão.

Tua bomba-coração
irriga.
Mas há dias
em que explode.

Querem-te máquina.

Teus braços aços
torneando os dias em turnos.
Afiadas ferramentas fixas,
que fresam, forjam.
Mas também ferem.

O mundo pesa
sobre tua caixa torácica,
escudo de verso inoxidável.


Tua inteligência
não é artificial,
não é programável.

Querem-te máquina.

Se eles soubessem
teu limite,
teu torque máximo...