30 de set de 2010

Kafkiana

Crisalidamente protegida,
durmo até que as cores
me explodam
e os versos voem.

Eu canto até me abrir,
desfazer o exoesqueleto.
Máscaras descartadas.
Romper a casca de quitina.

Descasco-me.
Abandonando
um eu lírico, um heterônimo.
Metáforas e metonímias
em mutações genéticas.

A poesia se move
tectônica como os continentes,
como o samba dos teus pés.

Em seu suco amniótico,
eu morro e nasço
em cada verso, cada paixão.
Sempre feto.

19 de set de 2010

Resíduo

O mesmo dia.
Terra tonta
rotaciona
sem translação.

O mesmo café
engolido de pé na estação.
Mesmas faces sonolentas no trem.
Lugares demarcados.
O feijão
repetidamente ruim.

Cansaço acumulado,
rugas, cicatrizes
lentamente
usinadas no corpo.

Apenas no corpo
o tempo passa,
se acumula.
Lá fora
o dia rotaciona,
reamanhece
sempre tão igual.

O corpo
apenas aguarda parar.
Aguarda o trem.

Mas se acumula no corpo
mais que rugas
mais que pó.

No corpo
nasce a poesia
flor inesperada e súbita.
Nasce em silêncio,
devagar.
Nem o sol a percebe.
Quando se vê,
já é rubra,
procriou.

Fará mudar
o corpo
o tempo
os dias.

Segredo

O clichê da lua cheia
absorveu a umidade do ar
e de pranto inflou-se.
Garoou.
Desorbitado
olho inchado de chorar.

Um amarelo envelhecido
da cachaça entornada
espalhou-se em sua face.
Imensa e redonda
a dor da lua.

Ninguém sabe.
Mas ela é apenas
reflexo satelital,
dor retroprojetada
de dentro do centro
gravitacional
do meu uivo.

Re-vida

A fera em ti
me rasga.

E eu, ferida,
ainda duvido.

Em mim, a dor
de teus dentes,
de teus olhos camaleônicos.

A mordida animalesca.
A fresca carne
que se rompe sem esforço,
desabotoada.

Púrpuros botões
brotam da fenda.
Porta violentamente aberta
entre os seios.

Minha dor
desgarrada sob tuas garras.
Desfiada entre os dentes.
Desafiada.

Minha dor
presa nas grades da cadeia
alimentar.

Minha dor
seiva quente
escorre em teus caninos
esvaindo vida.

E eu, ferida,
revido!

3 de set de 2010

Laços

Deitada ao teu lado
desejo laços.

Ata-me.
Punhos, olhos, pernas, sexos, fluidos.
Atemos
orgasmos em única gota.
Tatuemo-nos
com dentes, unhas.

Reatemos
nossas estradas e paradas.
Jasmins nos cabelos,
poesias em parceria.
Atemo-nos
dançando sons vulcânicos.

Deitados
os corpos atados:
uniforme emaranhado de membros.
Polvo humano deleitado.
As gotas transpiradas,
os fluidos nectares,
nossos elos melífluos
escorrendo pelos vales
entre meus e teus músculos.
Rios antes tão febris magmáticos,
agora repousam:
calmas águas termais.
Enlaçados afluentes.

Deitada ao teu lado
concebo e alucino
idéia mais profunda de laço:
espiralando-nos
nossos DNAs entrelaçados.