28 de out de 2010

Pro fundo

Isto
de não ficares
nas superfícies.

O abissal
das contradições.
Tanta delicadeza e voracidade.

De ter nos olhos tristes
uma maciez, um abracismo.
Nas mãos uns colibris.

E nas mesmas mãos
trovões desejosos.
A fome de encaixar-se
tão dentro em carne.
Envenenamento.
De apertar
rente
demarcar
o branco reneg(r)ado da pele.

O teu não saber se ater
à superfície.
Ultrapassar
a margem lábio.
Mergulhar.
Pedra rompendo
pele calma
das águas minhas.

Se te levo
iaramente
fundo
em meus lagos,
cabelos, unhas, peito,
é por seres
já tão profundo.

27 de out de 2010

De(s)dicatória

A poesia não diz.
Mas contempla teu nome
pré-fabricado
e não evita
versar a primavera.

Ela lembra
o beijo ausente,
pressente o corte.
Tergi-versa a dedicatória.

A poesia arre-pende?
Ela tende a ser tua
tende
a tocar na pele
um acorde meio Hendrix.



(Esta é para Lee Flôres, poeta apaixonante do www.expressaoprefabricada.blogspot.com , que contém flores em seu verso, em seu nome, em seu ser. E, mimado, gosta de dedicatórias.)

22 de out de 2010

Das posses

O poema
sem dedicatória
verso ouriço em tuas mãos.

É tão teu que o provocaste.
É tão meu,
que ofertado
permanece prole minha.

Mas exposto
ele caminha
solitário prostituto,
ama, serve, cabe bem
a outrem, a qualquer.
Veste as cores
de quem lê.

O poema que te fiz
sem selo, destinatário, remetente,
alcança mais.

Sendo teu o meu poema
não dedico.
Abdico.

Boneca Rubra 2


Fora.
O poema vermelho insuficiente
desalvorece em ti.

Mas dentro...
no ventre ventrículo
coração
de boneca russa
bem dentro dela
e dentro dela
e ainda mais dentro
e repetidamente dentro
epicentro
sempre

és o poema mais bonito.

19 de out de 2010

Verso Cego

Penumbrou-se
a poesia.
A retina ardia
uma escuridão.
Ainda assim,
li flores em teus olhos.
A densidade das hipérboles
dilatando pupilas.

Éramos
platônicos personagens
na caverna.
Estalactites.
O medo da fresta
aguardando o facho
da palavra luz.

Éramos 33
fomes e sedes chilenas
presas na mina germinal
centro ígneo útero
da terra, que sempre erra
o resgate.

Nem o pernilongo.
Nem a estrela.
Nem o beijo.
Nada ousou rasgar
a cortina da noite.

O verso
apenas adormeceu
no invisível som
do respirar.

15 de out de 2010

Maldizendo


Não se encruzilhe.
Poesia é mandinga braba.

Se a caldeira
desavisada
ferve.
Não vá misturando
pitada de verbo
línguas de metáforas
gosto sinestésico
de luar...

Não arrisque
alquimia de significados,
ricos sabores neológicos,
pois o molho
unguento
cozinha...
será inocente o que virá?

Não se iluda
com a magia
das assonâncias,
a ousadia
nos ouvidos
das moças.

Poesia não é coisa
do céu.
É obra do cão.
Macumba,
urucubaca...
não larga mais
a sangria intermitente.
A prosa tinhosa.

Pensa que impunemente
pode ir criando cântico
que alcança o âmago
e faz do olho uma nascente?

Prepare bem o ebó
de peito aberto
e corpo fechado.
Poesia é negócio feito
com sangue e alma.
E o Coisa-ruim
cobra em espécie,
líquido e corrente.

Não invoque o mundo
esta suposta
encruzilhada
de olhos malaguetos.
Esta sensação de incômodo.

Depois não haverá remédio,
exorcismo, quebranto
que a arranque
o nódulo do peito –
essa paixão no estômago.


(Por Yara Fernandes e Lee Flôres)

4 de out de 2010

Perto

Dançar:
um estar
tão perto.

Doce sangria
esta salsa, este cio.
Tua força
verso vivo
a enlaçar minha cintura.

Tão perto.
Que a acidez transpirada
me transparece.
Que nossas epidermes
são síntese úmida,
simbiose.

Tão perto.
Que nossas células
secretam
seiva e receios.
Como se dançar doesse.
Como se a dor de dentro contorcesse.

Tão perto
que tantas as partes
dos nossos corpos
se beijam
inconsentida
e inconsequentemente.

Tão perto
que nunca perto
o suficiente.